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Capítulo 02 - Paladino Real

Evalon: os Seis Lendários (E6L)

Capítulo 02 - Paladino Real

Autor: Tisso | Revisão: Matheus Freitas (Leia SZPS)

A tocha era segurada por um braço coberto por uma veste branca, claramente bem-feita e muito bem cuidada, certamente era de um nobre. O peito da roupa, no entanto, era coberto por uma armadura polida a ponto de se tornar um espelho que refletia a luz da tocha, em seu ombro, estava um brasão de uma caveira com olhos vermelhos, mostrando todo seu orgulho como parte de sua família. Em sua cintura, seis punhais de espadas que estavam guardadas em seis bainhas.

As belas e majestosas vestes pertenciam a um rapaz de cabelo branco e curto, que caminhava de forma calma e lenta, orando pelo corredor. Seus passos eram ouvidos e os prisioneiros gritaram pedindo misericórdia, mas os que reconheciam sua face não ousavam o atrapalhar.

Foi então que esse jovem começou a aumentar seu tom de voz, recitando uma oração.

Sabes senhor, que eu não sou o merecedor de sua bondade. Que não sou aquele que lutará pelo senhor ou que morreria por ti...

— O que esse cara está fazendo? — Cochichou Varis, enquanto o jovem orava.

— Não sei. Uma oração, talvez. — Sugeriu Voltten, respondendo à pergunta no mesmo tom de voz.

Edward com um brilho no olhar, apenas se levantou de sua posição - anteriormente deitada, e reuniu ar para falar.

—- ...Não sou um homem que pode se chamar de digno, mas meu coração visa o bem e minha espada a justiça... — Gritou Edward em quase desespero, completando a oração do jovem.

Com um sorriso no rosto, o estranho apenas recompôs sua postura e continuou a gritar.

—  ... Justiça essa que eu praticarei com minhas próprias mãos...

—  ... E que será espalhada por onde eu andar...  — Completou Edward.

 ...E que assim seja feito vosso desejo...  — Continuou o jovem, agora encarando Edward frente a sua cela.

—  ... Tanto nesse, quanto em outro mundo.

Um brilho verde se espalhou pelas barras de metal das celas dos três elfos, que deslumbraram tal luz que aumentava gradativamente.

Varis em um ato de curiosidade, estendeu sua mão para encostá-la, mas antes que pudesse realizar tal ação, foi parado pela voz do jovem que lhe alertou:

— Não encoste! — Ele viu o elfo recolhendo sua mão lentamente. — Você terá de se afastar.

Outro pedido atendido, os três andaram para o fundo de suas celas com medo e em questão de segundos, as barras iluminadas explodiram em uma ação que podia se assemelhar a uma explosão de vento e uma espécie de poeira verde se espalhou pelo local.

Os três elfos, sem entenderem o que aconteceu, saíram da cela e mesmo com o pó atrapalhando suas visões, conseguiram ver a cara do recém-chegado, coisa que antes era impossível devido às celas e aos muros de pedras que os dividiam.

Era algo meio estranho no início, mas logo eles se acostumaram.

Com o baixar da poeira, a tocha que era segurada pelo jovem iluminou os três com caras confusas, um sorriso apareceu no canto do rosto do homem que, supostamente, explodiu as portas das celas.

— Desculpe o exagero. — Disse o Jovem, fazendo outra magia com as mãos, iniciando uma corrente de vento que sugou a poeira para longe. — Eu gosto de ser um pouco dramático.

— Está desculpado! — Respondeu Varis, após breves tossidas e em um tom cômico.

— Salvai-vos senhor. — falou o jovem, direcionando a palavra a Edward — Me disseram que um elfo foi preso há uma semana, e que ele tinha recitado uma frase dessa oração.

Varis e Voltten se encararam rapidamente e depois olharam para Edward, esperando uma resposta.

O paladino olhou para o sorriso na boca do jovem e em seguida para o seu brasão, a luminosidade o cegou brevemente, mas nada que dure mais que um segundo, o elfo deu um passo à frente e se ajoelhou perante o jovem.

— Eu não tive culpa! — Disse Edward arrependido, deixando suas pernas trêmulas e sua face escondida pelas suas mãos em vergonha, reconhecendo o jovem como uma espécie de santo. — O senhor que eu agredi estava abusando de seu poder! Como paladino não poderia deixar aquilo como estava! Desculpem-me!

Uma gota de lágrima caiu do rosto de Edward e pingou no chão, causando um barulho que se destacou entre os quatro, logo após um derramamento maior de lagrimas tomou conta da atenção dos presos assustados.

“Esse cara tá desculpando? Você que está certo. ” Pensou Varis momentaneamente, mas sem demonstrar sentimento algum, além de espanto.

“Deve ser uma oração sagrada feita para redenção dos pecados... certo?” Voltten teorizou sobre a oração feita anteriormente pelos dois.

— Recomponha-se homem. – O jovem disse calmamente, estendendo a mão para Edward se levantar. — Venham comigo, os três.

O paladino recompôs sua postura e se acalmou, voltando ao tom sério típico dele.

O jovem sorriu ao ver a melhora emocional do elfo negro e se virou em direção a saída. Os três elfos decidiram acompanhá-lo, tanto pelo seu pedido anterior, quanto a uma pequena esperança que estava crescendo em seus peitos.

Após alguns minutos, eles chegaram à imensa porta de pedra que bloqueava a passagem, ela estava aberta a ponto de uma pessoa conseguir passar por ela. Os três, já prevendo o próximo pedido, se alinharam um atrás do outro, formando uma fila.

O Jovem apenas olhou e em alguns segundos entendeu o que os três estavam fazendo.

— Isso não será necessário eu abro a porta. — Ele disse de forma modesta.

— Não se preocupe! — Falou Voltten. — Não precisa fazer tanta força para empurrá-la. Ou pelo menos nos deixe ajudar.

“Vocês que se virem! ” Pensou Varis, respondendo mentalmente a sugestão do “Amigo”.

O jovem negou a ajuda balançando a cabeça e em seguida, estendeu seu braço para Edward entregando-lhe a tocha. Com apenas alguns alongamentos com os braços, o jovem posicionou suas mãos na porta de maneira semelhante aos guardas que a empurravam diariamente.

Mas, diferente dos guardas, seus braços não pareciam tremer ou fraquejar, em apenas alguns segundos do início do ato, a porta já tinha sido aberta completamente.

O jovem não se espantou com seu feito de força e apenas bateu as mãos tirando a poeira que sujou sua mão.

Varis engoliu sua saliva de forma seca e fria, excluindo qualquer capacidade de fuga oportunista.

Um ser aparentemente magrelo como aquele tinha conseguido empurrar uma porta que possuía um peso absurdo, esse fato parecia não entrar na cabeça de nenhum dos três que observavam a porta sendo fechada pelo jovem logo após atravessá-la.

Os olhos e a face do homem não haviam mudado, ele estava tão sorridente e calmo quanto antes, os olhares dos três elfos se cruzaram com as azuis e pacíficas íris do ser de força sobre-humana, que apenas estendeu a mão em sinal de querer a tocha de volta. Pedido esse, que foi atendido.

— Quem é você? — Perguntou Edward, gaguejando de tão assustado com tal demonstração de capacidade física.

— Eu? — Perguntou o jovem, confuso enquanto caminhava em direção à saída. Após perceber o equívoco ele se desculpou — Mas que falta de educação a minha. Prazer, eu sou Parysas Ossium, paladino real.

Todos se espantaram a medida que assimilavam a situação.

O fato de ter conseguido empurrar a porta tinha sido justificável – Seja por magia, ou por força física.

Agora todos sabiam que o plano de Voltten, em parte, tinha dado certo e ele se gabou mentalmente sobre isso, mas o mesmo começou a ficar pensativo.

“Em uma sala de um castelo, em uma casa de madeira, em qualquer outro lugar! Por que o paladino real viria pessoalmente nos buscar em uma prisão? ” Essa pergunta ecoou na cabeça do mago, que independente da dúvida, continuou a seguir o jovem que agora tinha um nome, mas não qualquer nome, um nome capaz de fazer até demônios pedirem piedade. 

Passando pela saída da prisão e subindo a escadaria que resultava em um pequeno quarto de pedra, um guarda sentado em uma cadeira quase dormindo decorava o lugar, ele logo entrou em espanto e se levantou ao ver Parysas, que apenas retribuiu o esforço momentâneo com um sorriso.

Ao sair do cubículo de pedra, os quatro se depararam com um imenso corredor feito de pedregulhos, que era enfeitado por inúmeras janelas esculpidas na parede oposta de onde tinham saído.

A vista de um rio ao longe que se mesclava com uma planície agradou a visão do paladino real, que apenas sorriu mostrando sua satisfação. Os guardas circulavam e passeavam no vasto corredor saudando Parysas ao vê-lo.

A luz do sol que banhava os olhos dos antigos prisioneiros, atravessou as janelas e iluminou algo que se equiparava a uma lança de luz perfurando a escuridão do peito de um demônio.

Com os olhos se acostumando lentamente a luz solar, os três seguiram Parysas até chegarem a uma porta de madeira aberta pelo paladino real que dava em um quarto velho empoeirado que possuía três camas. Em cima delas estavam roupas, armas e mochilas variadas.

Ao olharem atentamente, os três elfos perceberam que as coisas que estavam lá, eram na verdade seus equipamentos que foram confiscados antes de suas prisões respectivas.

— Acho que essas coisas são de vocês. — Falou Parysas, enquanto se escorava na parede que prendia a porta.

— Vocês estão devolvendo nossas coisas? — Perguntou Varis, já entrando e remexendo seus equipamentos.

— Se vistam e saiam. Vocês têm um compromisso a realizar. Eu estarei lhes esperando.

Os elfos entraram no quarto com dúvida e certo receio do que seria “o compromisso” citado por Parysas, após entrarem, a porta foi fechada para dar a eles mais privacidade.

As mãos de Edward passaram pela armadura de ferro que estava na cama central, o paladino  a reconheceu e tirou seus trapos velhos que eram conhecidos como “roupas” na antiga prisão. 

Vestindo sua roupa normal e a cota de malha ,ele separou um momento especial para colocar a armadura pesada. Seu corpo sentiu o peitoral de aço forjado para combate, que pesava e diminuía sua velocidade normal, mas que salvou sua vida algumas vezes. Era como se fosse sua segunda pele, ele ficou extremamente confortável.

Seu elmo esquentava sua cabeça e cobria completamente seus cabelos negros, deixando a visão aberta em seu clássico capacete medieval de ferro.

O escudo, que antes estava do lado de sua armadura, agora era colocado em suas costas preso por duas cordas que o amarravam a seu corpo, sua espada embainhada foi presa em seu cinto e com uma oração final, Edward terminou de se preparar.

Varis abriu a mochila da cama à esquerda e, tanto com os olhos quanto com os dedos, visualizou o seu conteúdo.

As diversas gazuas, algumas quebradas, sacos de dinheiro cheios de areia, cordas de diversos tamanhos e, o principal, duas adagas com lâminas capazes de cortar até o osso de um ser humano em um ataque comum. No fim do punhal das armas, correntes de metal relativamente grossas que tinham metros de comprimento e eram ambas guardadas em bolsas individuais de couro velhas.

O ladino sorriu ao reconhecer suas “velhas amigas” e as retirou da mochila, deixando-as junto com uma espada sem bainha.

Após conferir o conteúdo da mochila, Varis a fechou e direcionou sua atenção para as vestes que estavam ao lado, uma armadura de couro, leve como uma pena – pelo menos na visão do ladino – e uma capa preta que foi enrolada no pescoço de Varis após vestir a armadura. Ele colocou sua espada em na cintura e pendurou as bolsas de couro em seus ombros.

Voltten viu em que condições deixaram seu manto branco e percebeu que não estava muito diferente do que tinha deixado.

As vestes verdes que estavam estendidas na cama foram rapidamente colocadas pelo mago, que em seguida, amarrou seu manto no pescoço, cobrindo desde seus ombros até sua cintura. De uma mochila, que também estava na cama, o elfo visualizou rapidamente e percebeu a falta de alguns de seus livros.

De início, ele ficou raivoso, mas rapidamente a raiva se esvaiu e com um movimento rápido ele colocou a mochila em suas costas.

A porta se abriu e deu a visão de Parysas, que encarou os três elfos, agora em suas vestimentas adequadas. Com um simples arremessar de sua mão, o paladino jogou um objeto brilhante para Voltten, que percebeu a ação e tentou pegá-lo, mas acabou falhando e deixando-o cair. 

O objeto começou a rolar, revelando ser um anel. Ao parar, foi pego por Varis, que o segurou na ponta dos dedos, observando-o com um sorriso que dizia  “Por quanto será que posso vender isso?”.

O elfo negro assobiou em sinal de felicidade, sentimento esse, que acabou em segundos, após Voltten retirar o anel de sua mão e colocá-lo em seu dedo anelar.

— Esse anel vai servir de conexão com o mundo mágico. Foi feito pela minha irmã, então é melhor não perder. — Disse Parysas, quase rindo da cena que acabou de acontecer.

— Sua irmã? — Perguntou Edward, que aparentava ter ignorado o quase riso do colega paladino.

— Sim, uma maga especialista em encantamentos e magias de imbuição. – Parysas desviou rapidamente o olhar para a porta. – Falando nela, vamos logo à corte do rei, ele quer ver vocês. 

— Vou ser julgado assim de roupa e tudo? — Perguntou Varis, levemente impressionado.

— Algum problema? — Questionou Parysas, se virando para seguir o caminho.

— Não vai ser minha primeira vez frente em uma corte real. Normalmente não se deve dar armas ou equipamentos para condenados. – O elfo negro complementou de forma confusa.

— Mas vocês não são mais prisioneiros.

— O quê? — Os três perguntaram.

— Sigam-me, o rei irá explicar melhor. — O paladino segue seu caminho com passos lentos esperando os três que logo o acompanham. – E além do mais, mesmo que vocês estejam armados, não apresentam nenhuma ameaça às pessoas que servem o rei.


Por Tisso | 01/04/20 às 23:32 | Ação, Aventura, Fantasia, Sobrenatural, Magia, Mitologia