CAPÍTULOS
OPÇÕES
Cor de Fundo
CONTROLE DE FONTE
HOME INDEX
Capítulo 03 - Julgamentos e recrutamentos

Evalon: os Seis Lendários (E6L)

Capítulo 03 - Julgamentos e recrutamentos

Autor: Tisso | Revisão: Matheus Freitas (Leia SZPS)

O corredor de pedra aos poucos começou a mudar.

O piso e as paredes, que antes eram feitos de pedra talhada e lisa ou de pedregulhos, agora eram de madeira refinada, as janelas davam a visão para um pacífico rio, as paredes tinha como decoração pinturas e tapeçarias com várias tochas em diversos pontos.

Os quatro seguiram pelos corredores bem iluminados e recheados de guardas até chegarem à sala do trono do rei.

Uma imensa escadaria branca era coberta por um manto vermelho que terminava em um trono de madeira e ferro que parecia inquebrável. Nas paredes, diversas imagens de gatos que simbolizavam Tac Nyan estavam presentes em bandeiras, que se moviam devido ao vento fraco do que entrava de imensas janelas atrás do trono.

A figura gorda e bem vestida do rei se destacava em meio as pessoas que lá estavam. Um homem velho e com uma linda e bem-feita barba marrom estava sentado no trono, as vestes que eram uma mistura de cota de malha com vestes nobres o deixam com um aspecto militar e requintado, impondo respeito em diversos grupos sociais.

Ao seu redor, diversos homens e mulheres, que se vestiam com roupas caras e bem-feitas o cercavam de forma intrigante.

Mas, em meio a tantas figuras parecidas, uma se destacava. Uma jovem na faixa dos vinte anos, cabelo preto e roupas curtas, coberta por uma longa capa. Ela segurava um cajado de madeira – enfeitado com faixas e uma pedra vermelha desconhecida em sua ponta – que media quase a sua altura.

Parysas conduziu os três para o centro da corte e os colocou na frente do rei, e se retirou, juntando-se com a jovem. A figura dos elfos parecia tão fraca perante a presença do rei, o silêncio imperava e todos esperavam a palavra do senhor que apenas olhava para eles.

Voltten em meio à situação começou a se questionar sobre o que estava acontecendo e, ao perceber que estava sendo julgado por um rei em uma cidade sem importância como aquela, ele se perguntou “Por que o rei está aqui? Ele deveria estar na capital desse país”.

O elfo loiro deu um passo à frente, chamando a atenção de todos.

— Com licença, eu queria fazer uma pergunta. — Gritou Voltten, de forma envergonhada, tomando a atenção de todos. — Estamos em um forte no interior de Civitas, supostamente sem importância alguma, então poderia me dizer o que o rei do país estaria fazendo aqui?

Todos ouviram as palavras do mago e começam a conversar entre si.

Os murmúrios quebraram o silêncio e dominaram a corte. Parysas apenas sorriu como se quisesse que o questionamento acontecesse.

O rei levantou suas mãos e as encostou brevemente, batendo suas palmas que ecoaram pela sala.

Neste instante, a atenção de todos foi roubada pelo ato e em poucos segundos a corte estava vazia, ficando apenas o rei, Parysas, a jovem vestida com o pano vermelho e os três elfos que se perguntavam o que estava acontecendo.

O rei levantou de seu trono e caminhou lentamente até os três, que, assustados no calor do momento, permaneceram sem reação, ao se aproximar, o rei abriu lentamente a boca, sugando um pouco de ar para dentro de seus pulmões.

Quebrando completamente o clima tenso, o homem barbudo fechou a mão e a posicionou frente a sua boca e teve uma leve crise de tosse.

— Eu realmente esperava algo legal. – Criticou Varis, quebrando o gelo.

— Desculpe-me, estou velho. — Respondeu o rei resmungando vagamente.

— Senhor Argel, algum problema? — Perguntou a garota, caminhando na direção do rei com preocupação.

— Não, Sansa, está tudo bem. — Argel deixou sua mão escorregar à sua cintura e recuperou a postura. — Vocês três foram sentenciados à prisão, alguns a poucos meses, alguns eternamente...

— Só tem três pessoas aqui, você pode citar nomes. — Retrucou Varis na tentativa de fazer uma piada, que foi ignorada completamente pelo rei.

— Mas suas habilidades me interessam, como ato de misericórdia, lhes darei uma oportunidade. Vocês podem voltar a suas celas como prisioneiros, ou podem se unir ao nosso exército como “soldados especiais”.

— Soldados especiais? — Questionou Edward.

— Suas habilidades são superiores à de soldados normais. — Respondeu Parysas em uma explicação mais direta. — Um paladino em treinamento com relatos de leve uso de magia vindo de você, Edward, pode ter um potencial. Se treinarmos sua fé de forma militar seria de grande ajuda.

— Voltten... — Continuou a jovem com roupas de mago nomeada de Sansa. — Magos nos dias de hoje não são encontrados em todo lugar, se seguir moldes filosóficos e literários como é da sua área, podemos expandir os leques de opções.

— Minha área?

— E... Varis — Finalizou o rei, direcionando um olhar rigoroso para o elfo negro querendo intimidá-lo. — Sabemos sobre seu passado, você é um nível ladino além do que os ladrões e assassinos normais são, você seria uma carta na manga a mais que possuiríamos, não concorda, Edgar?

Varis em uma ação involuntária sacou sua espada para responder a ameaça direta do rei, tal ação foi lida rapidamente por Parysas e Sansa, que instantaneamente, se puseram na frente de Argel.

Aproximando-se de Varis, Parysas o ameaçou cortar a garganta com sua espada, enquanto Sansa invocava um feitiço irreconhecível para o ladino.

— Então aceitam? — perguntou Argel, se aproximando vagamente de Varis, que recolheu e a espada lentamente.

— Sim, aceitamos — rapidamente Edward e Voltten responderam, ambos pasmos com a situação.

Varis deu um sorriso, jogando levemente o corpo para trás, desfazendo o olhar raivoso e tomando uma postura mais informal, assim como Parysas e Sansa, que recolheram as armas rapidamente.

— É bom que você consiga diminuir minha pena. — Respondeu o elfo calmamente. — Devo ter umas dez prisões perpétuas só nas leis desse país.

— Pode ter certeza que eu diminuirei. — Falou o rei, virando de costas e retornando ao seu trono. — Por hoje descansem, Parysas e Sansa vão levá-los para os seus novos aposentos. Amanhã seu treino irá começar, é bom que estejam prontos.

— Vamos? — Perguntou Parysas, conduzindo-os pela saída da corte.

Os cinco que faziam companhia ao rei saíram e o deixaram sozinho, sentado em seu trono, Argel olhou ao redor calmamente prestando atenção em cada detalhe.

— Eu sei que está aqui Cérbero. — Falou o rei para a sala que supostamente estava vazia.

— É, eu percebi. — Em meio as cortinas vermelhas, um vulto quase sem cor aparente saltou, se revelando ser um homem coberto por um manto vermelho escuro que caia ao chão, deixando somente seu rosto se seu sorriso visíveis.

Com um cabelo desarrumado, uma barba por fazer ao redor de sua boca e com uma breve espreguiçada, o homem se virou para rei com um sorriso extremamente bizarro.

— Acha que eles me perceberam?

— Não, mas Sansa e Parysas talvez. — Respondeu o rei, nada impressionado com tal camuflagem.

— Também acho. Muitos nem conseguiram me ver, mesmo que a alguns centímetros, mas eu gostei deles. – Rapidamente ele mesmo se interrompe. – Digo, o paladino tem vagamente meu respeito, passar um mês estudando o ladino também me fez desenvolver algo sobre, quanto ao mago... eu diria que pelo menos ele não olha para as coisas de forma superficial.

— Era só isso que você tinha a dizer?  — Perguntou o rei, que não conseguia esconder seu incomodo com a presença de Cérbero.

— Não, não era. Os demônios de hoje de manhã já estão mortos.

— O que eram?

— Carniçais, nível três, fracos que davam até dó. – Ele afirmou de forma irônica.

— Precisaríamos de cinco guardas para acabar com uma dúzia deles, não?

— E eu precisei de três horas para dizimar... cinco centenas? Sabe, às vezes fico cansado de só ser enviado para tarefas fáceis, sou apenas uma piada que existe, só para suprir a suas necessidades de proteção?

O rei se impressionou levemente e sentiu uma leve intimidação, mas tal sentimento se esvaiu ao lembrar com quem estava falando.

— Então pretende fazer o quê? Sair do reino e de minha corte? — Perguntou Argel, em tom irônico.

— Eu bem queria. — Cérbero colocou os braços atrás da cabeça e bocejou alto, apenas para irritar o rei.  — Mas não tenho muito que fazer. Se eu ficar aqui, pelo menos vou ser obrigado a fazer uma coisa ou outra... E se sair... bem, ele não vai gostar tanto.

— Você sabe que eu não quero nem imaginar o problema que você arrumaria novamente para o reino. Por mim você nem estaria aqui mais.

— E vai fazer o quê? Me tirar? Você não consegue, tanto a sua proteção quanto a disciplina vêm de minha parte. – Cérbero comentou em tom irônico e com leves gargalhadas em pausas especificas. – Você é tão patético que não me impressionaria se você me enviasse em uma missão “suicida”.

— Engraçado você. — Respondeu o rei em tom de ironia e incomodo. — Mesmo se eu fizesse isso, você morreria?

— Provavelmente não. — Contrapôs Cérbero com um sorriso anormal em seu rosto. – Mas seria uma experiência boa.

— Está dispensado, por hoje, mas fique atento se vir algum demônio ou algo estranho nos arredores do castelo.

— Tá, tá. Eu me viro. — Respondeu o Cérbero com um bocejo forçado para indicar cansaço e tédio.

A porta de saída da corte dava passagem para um corredor de madeira, que foi atravessado por Cérbero que andava de forma relaxada e com nenhuma postura.

Os guardas que o cruzavam faziam o mesmo juramento que faziam para Parysas, mas ao contrário do respeito e confiança, eles apenas expressavam medo e pavor pela figura coberta de manto.

“Estamos em período da lua de sangue.” Pensou Cérbero calmamente. “Provavelmente haverá mais Carniçais matando galinhas amanhã. Que saco!”

Ao cruzar um corredor que voltava à parte feita de pedra e rochas, Cérbero acabou se esbarrando com Sansa e Parysas, que o cumprimentam com um abraço que não tinha sido previsto por ele.

— Não, abraços não! — Reclamou Cérbero em tom levemente cômico.

Os dois pararam de abraçá-lo, os soldados em volta viram a cena de afeto entre os três e quase riram da figura imponente de Cérbero, demonstrando um resquício de humanidade.

— Parem de olhar! — Cérbero gritou aos guardas, que após a ordem, voltaram à postura séria e seguem caminho.

— Não sabia que tinha voltado, Sr. Cérbero. – Falou Sansa.

— Saí da sala do trono pouco tempo atrás, apenas tive uma conversa rápida com o chato do Argel...

— Não o insulte, ele ainda é seu superior. — Interrompeu Parysas, vagamente incomodado.

— Parysas o que foi que eu havia lhe falado?

— Ser um paladino não é motivo para ser um chato. — Respondeu Parysas em tom de cansaço.

— Parysas é um chato mesmo. — Retrucou Sansa debochando do irmão.

— Cala a boca, você tem o quê? Cinco anos? — Retrucou Parysas, levemente irritado.

— Ela tem razão! — Concordou Cérbero – Você é um chato, Parysas.

— Calem a boca! Senhor Cérbero, o senhor devia ser o mais maduro aqui, olhe para sua idade.

— Minha idade? — Perguntou Cérbero, passando a mão direita em sua barba, tentando ser pensativo, mas não escondendo o sorriso branco de seus dentes.

— Quantos anos o senhor tem? — Perguntou Sansa, já prevendo a resposta.

— Sansa, entenda, quando você for mais velha, vai sentir a vergonha que é falar de sua idade.

— Você nos criou e nos treinou, além disso, o senhor é o melhor caçador do reino. — Retrucou Parysas em um tom amistoso. — Nunca teríamos vergonha do senhor.

— Obrigado pelas palavras bonitas e rótulos e os tanto faz, mas digamos que eu estou mais para os quarenta do que para os trinta.

— O senhor é um mentiroso! — Reclamou Sansa — Quando meu irmão nasceu, o senhor já era velho.

— Sansa, não me chame disso.

— Mentiroso? — Perguntou Parysas.

— Velho. — respondeu Cérbero, cabisbaixo.

Os dois riram dos dizeres do caçador, enquanto ele recuperou o bom humor em questão de segundos.

— A propósito, três novos “recrutas” começarão o treinamento amanhã. — Disse Parysas após acabar de rir. — Eles estão no velho quarto que ficavam os soldados em treinamento.

— Sim, o Argel já me falou sobre eles essa manhã, pelo visto vão ser vocês que vão treiná-los.

— Alguma dica? — Perguntou Sansa.

— Tenta não matar eles no primeiro dia, isso é o essencial.

— Você tentou nos matar quando estava nos treinando? — Questionou Parysas, assustado.

— Não, mas acho que se tentasse, vocês aprenderiam a não me chamar de velho.

Os risos dos dois irmãos vieram à tona novamente, Cérbero apenas sorriu de uma forma que lhe causava uma leve dor, se virando e com o balançar de sua mão direita, ele se despediu dos dois.

Por Tisso | 01/04/20 às 23:33 | Ação, Aventura, Fantasia, Sobrenatural, Magia, Mitologia