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Capítulo 04 - Fuga frustrada

Evalon: os Seis Lendários (E6L)

Capítulo 04 - Fuga frustrada

Autor: Tisso | Revisão: Matheus Freitas (Leia SZPS)

O pôr do sol chegou e com ele uma ideia suicida surgiu na cabeça de Varis, fugir dessa nova “prisão” hoje à noite.

Mesmo sabendo dos riscos que iria correr, a sensação de ter as “correntes” desse lugar lhe prendendo não lhe confortava, pelo contrário, lhe instigavam mais ainda a fugir do local.

Com as cordas que possuía guardadas em sua mochila, o ladino esperou a calada da noite, ao ouvir os roncos de Edward e Voltten, ele percebeu que chegou a hora de agir. Com sua mochila nas costas coberta pela capa preta que sobrepunha, sua espada e adagas posicionadas em sua cintura, um lugar de fácil acesso para garantir um saque rápido.

A porta foi lentamente aberta e não fez nenhum som, o corredor estava vazio e os passos dos guardas não podiam ouvidos, as tochas que estavam penduradas do lado das janelas eram o que havia de mais brilhante no lugar.

— Perfeito. — Murmurou Varis, ao percorrer os olhos por toda a região.

O Ladino amarrou a corda, prendendo-a nas pilastras que as separavam.  Com um bom nó, Varis finalizou jogando a corda para fora da janela e a observou cair lentamente em um campo verde que havia a alguns metros de lá.

Ele contou os segundos que a corda demorou para atingir o chão e fez mentalmente o cálculo para saber aproximadamente quantos metros teria que descer. Ao chegar no resultado de dez metros, o ladino segurou sua corda e a desceu com cuidado para não fazer barulho.

Ao final da descida, Varis colocou os pés no gramado verde escuro da planície, com um sorriso de orelha a orelha, respirando o cheiro da grama vagamente molhada, ele se preparou para dar o primeiro passo rumo a liberdade.

Porém, ele foi surpreendido com uma flecha que zuniu em seu ouvido, arrancando-lhe uma pequena parcela de seus fios de cabelo não muito longos que caíram ao lado de seu pé.

Assustado, Varis olhou para trás, esperando encontrar o arqueiro que atirou a flecha, mas isso não era necessário.

Como uma pedra gigante em queda livre, o responsável pela flecha se jogou do telhado que estava escorado e atingiu o solo poucos metros do lado de Varis, fazendo uma pequena cratera.

A figura completamente coberta por uma enorme capa vermelha negra possuía um cabelo relativamente grande e desarrumado, barba por fazer ao redor da boca e estampava em sua face um enorme sorriso sádico.

— Dol. Edgar Varis, Certo? — Perguntou o homem.

O frio tomou conta do corpo de Varis. Era como se o mesmo fosse levado para um inferno de gelo. Uma mistura de trauma e medo perante aquela figura misteriosa.

— Como sabe do Edgar em meu nome? — Perguntou o elfo negro gaguejando de medo, tentando sacar a espada, mas falhando, devido ao seu corpo, que se recusava a mover um músculo sequer.

— Como eu sei? Bem, digamos que sei. – Ele ironizou de forma debochada.

— N-Não quero brincadeiras... – Varis afirmou tentando ameaçar, mas falhando pelo medo e gaguejando frequentemente. – I-Isso nem ao menos faz sentido.

— Concordo, mas é o necessário para você saber. Venha comigo, lhe conduzirei de volta para seu quarto.

— Quem é você?

— Eu? Prazer, Cérbero, caçador e umas outras coisas aí.

— Sobrenome? – O ladino tentou voltar a postura original, mas ainda sem sucesso.

— Não lhe interessa. — respondeu Cérbero em forma de piada. — Venha, tenho o direito de matá-lo se você tentar fugir, mas eu gostei de você.

— De mim?

— Sim, você se parece comigo quando jovem, de certo modo. – Cérbero comentou de forma cômica. – Um jeito sempre desinteressado e com o foco em outra coisa, fora umas outras coisas.

— Então você está na mesma do que eu?

— Aprisionado sem esperanças de liberdade? – Ele ironizou rapidamente. – Concordo de certo modo, mas diferente de você, eu não tenho motivos para ter esperança quase.

— E eu tenho?

— Você pode aproveitar um momento que ninguém esteja te vigiando e fugir, se unir a uma caravana, se casar, ter uma família, uma filha... – Cérbero ficou em silêncio por um tempo, antes de completar. – Ou algo do tipo, entende?

Varis estranhou a sugestão de fuga de Cérbero, que supostamente deveria impedi-lo de fugir.

— Você quer que eu fuja? — Perguntou Varis.

— Não me importo que fuja, mas que faça isso quando eu não estiver encarregado por você. Se eu tiver uma falha dessas, meu irmão vai ficar desapontado comigo.

Os olhos negros de Varis entraram em contato com os bizarros olhos marrons de Cérbero pela primeira vez na conversa, eles pareciam tão vazios e focados ao mesmo tempo, combinado com o sorriso, foi o suficiente para anular completamente qualquer pensamento de fuga por completo.

— Imagino que eu não tenho muita escolha. – Varis recuou um pouco, se rendendo as falácias do caçador.

— Apenas aguarde em seu quarto, tenho certeza que amanhã vai ser um ótimo dia. – Ele ironizou com uma risada suspeita e bizarra.

A noite continuou e os dois entraram no castelo pelo portão principal. Com as instruções de Cérbero, Varis foi conduzido até seu quarto, onde se deitou em sua cama e adormeceu em pouco tempo.

A corda que tinha sido usada para a fuga do ladino foi retirada pelo caçador que a recolheu e a deixou na frente da porta do quarto. 

Vagando pelo castelo, trilhando os corredores e as escadas, ele subiu ao topo da torre mais alta da estrutura, que lhe permitia ver tudo o que rodeava a construção, a pequena vila que havia frente ao forte, a enorme planície que o rodeava e junto com o pequeno rio que seguia para bem longe.

Ao olhar fixamente para o horizonte, o caçador percebeu que vinha vindo em sua direção um pássaro peculiar.

Ele possuía quatro asas, sendo as superiores vermelhas e as inferiores brancas, dando a impressão que suas asas de cima fossem uma capa real. Estava amarrada em sua perna, um pacote fino e resistente de cartas.

A ave pousou no braço de Cérbero que o estendeu para conseguir desamarrar a linha que as prendia.

Após ter o papel retirado o animal voou para longe com um simples comando do caçador.

Rapidamente Cérbero percebeu que a primeira carta do pacote era destinada a ele por ninguém mais que seu irmão. Se ajeitando rapidamente, ele começou a ler a carta.

Caro irmão, as coisas aqui em Cartan estão calmas e tranquilas, espero que aí em Kranbar também estejam.

Os tratados com Kaplar e seu apoio estão indo bem e a paz impera, espero que continue assim por mais tempo. Mesmo sabendo que você adora uma briga, espero que concorde comigo.

Esses últimos cinco anos foram divinos para mim, quase não fui obrigado a usar os ensinamentos de nosso pai, as poucas vezes que os usei, não precisei das reais capacidades.

Mesmo sabendo de seus planos para o futuro, espero que reconsidere a possibilidade de uma vida normal aqui. Mas, caso ainda queira seguir o real objetivo, eu irei estar aqui para lhe ajudar.

Assinado: Ortros.

Ps: não se esqueça de realizar um feitiço da vida e uma magia branca por dia.

— Ortros... — Murmurou Cérbero. — Você finge esquecer o que importa, ele ainda está vivo, sua vontade de perder o tempo aqui não pode ser infinita... tudo vai ruir alguma hora, mudanças involuntárias irão ocorrer, por mais que você tente mudar, nada vai acontecer, é como uma torre.

Olhando para o horizonte, as nuvens se moldavam em vultos e dançavam com as estrelas, a mente do caçador lembrou do céu, lembra do vento. As nuvens que, mesmo se alterando e fluindo com o tempo, estavam lá em toda sua jornada.

– Edgar, não é... Ele teve um fim merecido. A única coisa no mundo que realmente possui valor é o laço familiar, você sabe disso.

Ele soltou uma baforada apenas para sentir o vapor de seu hálito, produzindo umidade para lubrificar sua pele. O olhar fixo nas estrelas proporcionou um sentimento de tristeza, mas ele estava incapacitado de chorar, continuando seu lamento.

– Ele nos tirou tudo! E eu perdi o que tinha antes de saber que eu não tinha. – Cérbero apontou a unha para a própria garganta e a sentiu aumentar, ficando tão afiada quanto uma adaga de aço. Porém, ao entrar em contato com sua pele, seu couro só retraiu um pouco, independente do quanto ele tentava estocar. – Ainda temos sentido nesse mundo, devemos fazer o que fomos destinados, somos a verdadeira forma de defesa perfeita.

O caçador olhou profundamente para o chão, a queda da torre que ele estava, superava fácil os cinquenta metros.

Ele encarou o frio verde da grama e teorizou sobre quanta dor ele sentiria se caísse daquela altura.

Ele fechou os olhos e mordeu os lábios, em seu último suspiro que demarcava o final de seu lamento ele proferiu mentalmente “me leve de volta a época que valia a pena estar aqui”, ele se jogou mais uma vez para se libertar.

Após cair, tanto na realidade quanto no solo ele se levantou de forma depressiva.

Ele já esperava isso quando se jogou, mas a sujeira que ficou na sua roupa era algo novo, sua armadura de couro que residia embaixo de seu pano, ganhou algumas manchas de lama agora.

Cérbero começou a caminhar novamente na direção de entrada do forte, mas dessa vez, ele mancou propositalmente, talvez por tentar emular dor, talvez por não saber o que fazer ou talvez para consolar a si mesmo.

O peito do caçador era apalpado pelo mesmo, junto de toda sua armadura de couro remendada.

Aquelas peles de animais costuradas em formato de armadura e remendadas a cada corte que recebia, entraram na mente de Cérbero como espinhos de memória em sua mente.

Sentindo o corte que lhe fora dado no peito como primeira tentativa de matá-lo, os rasgos remendados nos braços quando ele não conseguira bloquear as espadadas com as mãos, ele até mesmo sentiu a borda da roupa que fora costurada especialmente para ele como um presente.

Uma borda feita com materiais refinados, um couro resistente feito com criaturas já extintas, tudo aquilo era lembrado como feixes de memória que os machucava internamente um após o outro.

Ao ver novamente o caçador retornar para o forte, os guardas pensaram em questionar, mas só de chegar perto eles mudaram de ideia.

Caminhando pelos corredores por alguns minutos ele se reencontrou com Parysas, que naquele momento, já estava sem sua armadura e prestes a ir dormir em seus aposentos.

– Pelo visto, vai ficar vagando de novo. – Parysas ironizou se aproximando de Cérbero.

– Não é como se fosse novidade. – Ele respondeu se desleixando um pouco.

– Demônios preferem planejar a noite e atacar ao dia.…

– ...porque se atacassem a noite nós não os veríamos e não ficaríamos com medo. É quase ironia pensar que eles querem ser vistos em seus ataques do que atacar furtivamente. – Terminou Cérbero de forma rápida. – Foi eu que te ensinei isso, espera que eu esqueça?

– Não, você é o mais sábio que eu já...

– Parysas, sem isso. – Cérbero o cortou rapidamente. – Eu não me sinto bem com bajulação.

– Foi mal, só, achei que era bom eu tentar animar.

– Só ignore. Hoje só é um mal dia. – Cérbero sorriu falsamente, enquanto ignorava Parysas. – Vá dormir, você tem um recruta amanhã.

– Sim. Até amanhã, Cérbero.

Após se afastar do paladino real, o caçador lembrou de seus cabelos brancos e de seu progenitor.

No fim, ele sabia que ele era só mais uma de suas perdas, mas conviver todos os dias com os filhos do homem que já significara algo para o caçador, era mais uma dor a carregar.

Entrando em seu quarto, Cérbero olhou seus poucos móveis.

Uma escrivaninha, uma cadeira com papéis em branco e um tinteiro era o principal, mas seus mostruários eram inúmeros.

Desde facas, espadas, bandeiras, recordações históricas e afins.

Mas seu principal item, era uma caveira colocada em um pedestal extremamente protegido, aquele era seu tesouro.

Ao olhar para ele, Cérbero só sentia a dor do inferno.

O item não era mágico, era longe de ser algo útil, mas era algo que destruirá completamente o caçador.

Ele não tremeu, não chorou, não retraiu os músculos, só encarou o crânio, encarou o buraco que estavam os olhos, ele ignorou tudo ao seu redor, passos, grilos, estalar das tochas, tempo, universo e a realidade.

Tudo que ele sentia era dor, sabia que nesse caso não poderia culpar ninguém, ele mesmo havia sido o culpado por aquilo.

O culpado pelo crânio, o culpado pela dor, o culpado por tudo que acontecera de ruim.

Após olhar para o crânio por horas, ele desviou o olhar para o lado, vendo a bandeira verde musgo com uma face de uma coruja com chifres longos estampados em dourado.

Extremamente bem cuidada e limpa ela decorava quase que uma parede inteira.

Olhando para ela, o sentimento sentido mudara vagamente, a dor permanecia, mas a ira o tomava aos poucos.

Ele fechou seu punho em raiva, proferindo todas as maldições possíveis mentalmente.

Um brilho negro misturado com raios vermelhos escaparam de sua mão, que os atraiu novamente como uma forma de não os manifestas. Junto deles uma carga dourada e verde neon vieram a tona.

Ao acabar sua “reflexão” ele abriu a porta de entrada do quarto e se deparou com a luz da manhã, mais uma vez ele passou a noite toda apenas encarando suas relíquias pessoais.

– Um novo dia, uma nova oportunidade de um desastre me obrigar a me tirar daqui. – Ele falou ironicamente, enquanto tentava esvair os sentimentos negativos com um simples alongamento.

Por Tisso | 01/04/20 às 23:41 | Ação, Aventura, Fantasia, Sobrenatural, Magia, Mitologia