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Capítulo 05 - Iniciando-se a magia

Evalon: os Seis Lendários (E6L)

Capítulo 05 - Iniciando-se a magia

Autor: Tisso | Revisão: Matheus Freitas (Leia SZPS)

Com o chegar do sol, que iluminava o verde dos campos ao redor do forte, os elfos acordaram cedo, quase acompanhando o nascer da estrela de fogo.

Voltten acordou e se levantou, ele pegou um de seus livros e começou a folheá-lo, o barulho das páginas passando acalmou e despertou por completo o elfo, que leu apenas algumas páginas e em seguida guardou o livro dentro de sua mochila.

Edward, diferente de Voltten, aproveitou o despertar e colocou sua armadura que tinha tirado para dormir.

Fazendo pouco esforço para se acostumar novamente com o peso da veste de metal, o paladino terminou e abriu a porta do quarto, se dirigindo para as janelas com a intenção de observar a grama movimentada pela brisa que vinha das montanhas ao horizonte.

Ondas de ar passavam entre as imensas planícies e batiam na parede do castelo onde tinham seu fim definitivo.

A calmaria do elfo negro chegou ao final quando ouviu passos e murmúrios de alegria vindo em sua direção. Ele olhou para o lado que escutou a origem desses sons.

Edward se deparou com Parysas, sorridente como no dia anterior. Os dois paladinos se encararam com calmaria e sorrisos simpáticos.

— É bom ver que vocês já acordaram. — Disse Parysas, observando pela fresta da porta Voltten lendo seu livro calmamente.

— Nem todos acordaram ainda. — Respondeu Edward, direcionando a palavra para Varis.

— Varis ainda está dormindo, então?

— Sim... – Ele afirmou incomodado e desconfortável. – Devemos acordá-lo?

— Não será necessário. – Parysas respondeu com um leve tom humorado. – Apenas você e Voltten precisam aprimorar suas habilidades referentes aos outros planos. Chegamos à conclusão a pouco tempo que não seria muito acessível e recompensador lhe ensinar magia desde o zero.

— Então pretende deixá-lo dormindo? — Perguntou Edward rapidamente de forma incomodada e surpresa.

— Eu nunca disse isso. — Contrariou Parysas de forma cômica. — Temos um “serviço especial” para ele, mas ele não vai ocorrer agora, então é melhor deixá-lo descansando. Vai por mim, ele vai precisar.

— Certo... — Concordou Edward, apenas imaginando o que seria esse tal de “serviço especial”.

O paladino real se aproximou do canto da porta, e ao ver Voltten guardando seu livro em sua mochila, o chamou para fora, ato que o mago não hesitou em executar.

Com os dois elfos o seguindo, Parysas conduziu os dois amigos pelo castelo, se despedindo de Voltten na porta que ele dizia ser a biblioteca.

O mago abriu a porta e se deparou com a imensidão de livros em estantes firmes de madeira e em cima de mesas de pedra, Sansa o aguardava no meio daquilo tudo de forma paciente.

Os dois magos foram deixados de lado pelos paladinos que se dirigiram para fora do castelo em um campo afastado, tanto do forte quanto da pequena vila próxima dele.

Nele, diversos bonecos de treinamento feitos com sacos de batatas rasgados e alvos com inúmeras flechas decoravam o lugar, com apenas algumas árvores o destacando como complemento.

O campo de treino era um lugar para se aprender o manuseio de armas diversas sem a preocupação de danificar algo no castelo.

Parysas andou até um dos bonecos, que eram fincados no chão por estacas de madeira e após chegar se virou para Edward com um sorriso típico.

— Acho que você não precisa estudar esgrima, certo? — Perguntou o jovem loiro, que estava a poucos metros de distância do elfo negro.

— Se seu plano era me ensinar desde o básico, lamento decepcioná-lo. Sou tão experiente que por pouco não virei um comandante. — Respondeu Edward orgulhosamente estufando o peito.

— Era isso que eu queria ouvir! — Exclamou Parysas, abrindo mais seu sorriso. — Alias, me diga Edward, quantos anos você tem?

— Vinte e Sete, faço aniversário em setembro caso queira especificações.

— Vinte e sete? Para um elfo isso seria praticamente a adolescência, isso é bom, quanto mais jovem, melhor a pessoa absorve informações. – Comentou Parysas, pensativo. – Temos a mesma idade então, mas existe um, porém.

— E qual seria ele? – Edward questionou vagamente intrigado.

— Eu faço aniversário em junho, então consequentemente, sou mais velho.

Edward riu um pouco da suposta “descontração” do paladino real que o fez lembrar que, mesmo sendo uma pessoa de alto poder, ele ainda era humano e tinha seu lado casual.

— Bem... Chega de piadas! É melhor falarmos a sério agora. — Disse Parysas, diminuindo vagamente seu sorriso.

— De acordo.

— O quanto você sabe de magias, Edward?

— O básico do básico praticamente. Me nomeei paladino há pouco tempo e não tive muito tempo de desenvolver minhas habilidades. – Ele suspirou em um tom de inferioridade. – Consegui manifestar aura vagamente algumas vezes, mas nada muito concreto.

– Ironicamente esse é um dos melhores casos que vejo em meses. – Parysas afirmou de forma pensativa. – Sabe sobre formas de ligação entre os mundos, elementos básicos e orações?

— Não muito, apenas sei que para usar magia precisa-se de uma ligação entre os planos mágicos ou ao plano divino.

— Você está certo, em parte.

— Em parte?

— Vai ser um longo dia... — Parysas deu um suspiro e buscou em sua mente os primórdios dos ensinamentos que lhe tinha sido ensinado. — Está bem! Já sei por onde começar.

Edward deu alguns passos na direção do colega para conseguir prestar mais atenção.

 — A magia é dividida em três áreas: Magia Branca, Magia Negra e os Planos Divinos.

Parysas começou a ilustrar formas e figuras com poeira reunida com um leve domínio do vento, tudo em tonalidades brancas.

– Magia Branca são os chamados domínios de Yeshua, ou Jesus dependendo da região. Devido ao seu poder superior aos outros deuses, ele conseguiu reunir energias suficientes para que pudesse ser feito um plano próprio e aberto que não precisa necessariamente de fé. Normalmente a magia Branca só é usada por feiticeiros, magos ou paladinos cristãos.

Fazendo uma base com suas mãos, ele criou uma figura etérea de uma pomba que voou alguns centímetros antes de desaparecer.

 – Em contrapartida, a Magia Negra são os domínios de Lúcifer.  Semelhante a Yeshua, seu poder é tamanho a ponto de criar seu próprio plano que não precisa necessariamente de fé, também conhecido como Inferno. É de lá onde os demônios se formam e é de lá onde bruxos e magos ou até os próprios demônios tiram energias para seus feitiços. O preço por mexer com esse tipo de magia costuma ser mais arriscado que o normal, mas pode ser considerado mais recompensador de certo modo.

As mãos do paladino criaram tornados pequenos que atraem poeira, que foi manipulada causando pequenas explosões controladas que se expandiam e contraiam.

– Os Planos Divinos são um caso à parte, eles funcionam como uma espécie de “Favor”. O paladino, clérigo ou sacerdote que siga determinado deus, faz uma oração para o Deus escolhido, assim adquire parte de seu poder emprestado.

Diferente das outras formas de exemplo, dessa vez Parysas criou pequenas luzes verdes que rodeiam sua mão de forma aleatória.

— Incrível! — Afirmou Edward, impressionado com tal complexidade.

— Você também segue Tac Nyan, certo?

— Sim! — Afirmou o Elfo negro, deslumbrado com tais brilhos.

— Sábia escolha.

— Por quê? Ele é mais forte que os demais? — Edward perguntou, aumentando suas expectativas.

— Não, é só porque é ele que eu sigo também, fica mais fácil de explicar. — Respondeu o Paladino Real com um sorriso típico e um tom vagamente cômico.

— Entendo. — Completou o Paladino. – Era esse um motivo para vir para um dos poucos países que ainda o seguem.

— Se não somos o único. – Parysas comentou. – Tem alguma razão para seguir Tac Nyan?

— Eu? — Edward perguntou, receoso perante as tristes lembranças de sua vida. — Na realidade, tenho em parte.

— Você poderia me contar? — Parysas virou o rosto que olhava para o horizonte e percebeu a tristeza de Edward. — Claro, se não for um incômodo.

— Não. Está tudo bem... eu acho.

As lembranças que vieram a cabeça do paladino com fortes dores devido aos traumas.

A planície e a vida no sítio apareceram na mente do elfo negro, que sentia o trigo crescendo pinicando sua pele enquanto o andava colhendo os já maduros e os colocando em um cesto de palha.

– Quando tinha vinte anos, eu podia dizer que tinha uma vida perfeita. Era casado com meu amor, ela esperava minha criança que nasceu três meses após meu aniversário.

O fogo tomou conta do trigo deixando a figura do paladino em uma imensidão de poeira e brasas.

Sua humilde aldeia queimando em uma culminância de chamas que refletiam em suas íris vermelhas, os gritos das pessoas que de lá saiam, ecoaram por alguns segundos em sua mente.

– No final da Guerra dos Povos me chamaram como soldado, lá eu aprendi as minhas técnicas de esgrima. Enquanto eu lutava no final da guerra, minha filha crescia em uma zona segura de um pequeno reino que residíamos como hospedes em busca de um lar real.

Edward fez uma pequena pausa em sua fala, inspirou e expirou.

– Após o término daquele massacre que se mostrava interminável, eu pude voltar para casa em mil duzentos e cinquenta e três. Lá, em minha humilde vila que aos poucos era reconstruída, vivi os últimos dois anos de minha vida pacífica. – Com uma respiração forte, ele continuou. – Um dia fui chamado de volta para o campo de batalha por causa de uma gangue de assassinos, Interfectores Del Amine, lembro-me do nome deles até hoje. – Edward afirmou friamente com um sentimento pesado em seu corpo. – Se soubesse que antes daquilo seria a última vez que veria minha mulher e minha filha, eu teria aproveitado mais.

A face do paladino foi coberta pelas suas lágrimas, seus olhos foram tampados por sua mão dominante, seja por vergonha ou por receio, talvez até mesmo para não se provar fraco perante Parysas.

– Um mês depois, meu grupo tinha se reunido com outros grupos de outros reinos que acharam a localização da Interfectores, eram um clã enorme, não posso negar, mas nós éramos em maior número. Invadimos a sociedade deles com um ataque direto em um momento favorável, aos poucos ambos os exércitos caiam, mas eu conseguira ver meu objetivo claramente. Dizimar aqueles homens e mulheres era cruel e impiedoso, mas saber que os mesmos faziam aquilo apenas por moedas me segurava naquele momento.

Vergonha e o arrependimento batiam nos pulsares do coração de Edward ao proferir o prazer no mal de seus inimigos.

– Seu covil parecia interminável e dividido em várias áreas, todas possuíam cada vez mais e mais assassinos, mas eu fui guiado para uma ala de magia de pactos. Eu e os outros soldados que me acompanhavam sentimos toda a dor dos corpos desolados em meio a círculos ritualísticos...

Uma pausa foi feita com o iniciar de um choro, uma amargura tomou conta de Edward, a culpa caiu perante sua imagem, seus arrependimentos o feriam internamente, como uma explosão de espinhos, coisa que ele só conseguia sentir ao contar essa história.

– Em meio aos rostos e corpos, eu as vi! – O tom de voz aumentou para gritos de dor interna e completamente desesperadas, como se diversos gatilhos de melancolia fossem acionados todos de uma única vez. Rapidamente suas pernas tremeram junto de seu corpo e foi difícil se manter de pé. – Eu as vi arrancadas e fora de seus corpos, a pele, as marcas, elas estavam lá!

Parysas correu e tentou abraçar e acalmar o amigo, sorrateiramente recitando magias para acalmar a mente do companheiro.

– Eu senti os fios de cabelos delas, elas estavam frias...

Edward abraçou o pescoço de Parysas apenas com um braço, enquanto seu choro manchava as vestes brancas de pano do Paladino real.

– Eu desmaiei, eu fui fraco e tive sorte ao sobreviver. – Edward soltou Parysas vagamente e levantou ainda trêmulo e triste, mas se recompondo lentamente. – Todos os corpos que estavam lá, todos tinham vidas, todos eram pessoas, mesmo não fazendo o certo, eles ainda tinham vontades e sonhos.

– Sim, eles tinham. – Parysas afirmou sem ânimo e com extremo respeito ao companheiro.

– Parysas, depois daquilo eu fui nomeado uma lenda entre meus amigos, eu salvei a todos dos inimigos, garanti que o clã de assassinos não fizesse mais vítimas, mas no fim eu não estaria apenas fazendo o mesmo que eles só que em um contexto diferente. – Afirmou Edward, olhando para as próprias mãos ainda meio tremulas. – Eu estou correto em fazer isso?

“As memorias realmente parecem conturbadas...” o paladino real comentou mentalmente.

– A parte mais chata de paladinos é sua empatia, foi o que me ensinaram quando eu estava em treinamento. – Afirmou Parysas com uma resposta clara. – Pensar que seu inimigo está certo, na realidade dele ou que ele faz o mal apenas por necessidade é algo bem tênue para diferenciar quem é do mal e quem não é. Até mesmo uma poça de pecados pode buscar redenção e se não buscar, porque teríamos o direito de dar fim a suas vidas?

– Acredita que esse é o caso de Varis?

– Talvez. – Parysas afirmou, pensativo e frio. – Aliás, se não for incomodo eu gostaria de que você continuasse a conversa.

Edward parou momentaneamente para respirar, mas logo continuou.

– Os sacerdotes que ainda estavam vivos após o ataque me guiaram para o caminho deles, o caminho de Tac Nyan. – Edward continuou limpando o rosto e tentando recuperar o ânimo.

– Mas você compreende que o mal, de certa forma é necessário, não?

– Sim, enquanto os bons vão continuar espalhando suas palavras, os maus vão corrompê-las. – Edward olhou para seu punho aberto e o fechou lentamente. – Não posso evitar meu desejo de matá-los, sinto que esse é meu peso morar para carregar.

– Não temos como não cometer pecados. – Parysas afirmou, se aproximando vagamente. – Se não tivéssemos pecados, esse seria o pecado. Nunca em minha vida vi alguém que não tivesse um pecado sequer.

— Não faz tanto sentido quando você fala, mas você está certo. — Confirmou Edward, se recompondo quase que por completo, claro que boa parte disso foi a influência mágica de Parysas. — Nós não viemos aqui aprender magia?

— Sim, viemos. – Respondeu Parysas em um tom desanimado, mas que aos poucos recompôs o ânimo típico do paladino real.

— Muito bem! — Parysas passou a mão em seu pescoço por dentro de sua roupa e retirou de lá um colar com um pingente de um gato banhado a ouro. — Esse é meu colar reserva. Pode pegar por hoje.

Parysas estendeu a mão com o colar, entregando a Edward que o colocou em seu pescoço.

O paladino sentiu um leve aumento moral em seu corpo, algo que se assemelhava a sensação de peso na consciência. Sensação essa, que foi aumentando e causando uma leve náusea.

O colar entrou vagamente em sincronia com seu novo usuário, então assim eles selaram o pacto entre canalizador mágico e invocador.

Por Tisso | 02/04/20 às 19:05 | Ação, Aventura, Fantasia, Sobrenatural, Magia, Mitologia