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Capítulo 14 - Troféus Morais para uma Preparação Digna

Evalon: os Seis Lendários (E6L)

Capítulo 14 - Troféus Morais para uma Preparação Digna

Autor: Tisso | Revisão: Matheus Freitas (Leia SZPS)

Enquanto a discussão dos cavaleiros se desenrolava, James já havia sido retirado do local por guardas, que o conduziram para outra ala do castelo interno.

A caminhada acabou em um lugar fresco, uma ala de treinamento com algumas janelas a três metros de altura do chão. O arqueiro teve suas vestes e suas armas originais devolvidas, as colocando no local.

A sala, que parecia se assemelhar mais a uma grande área do que a parte de um quarto normal, tinha bonecos e manequins por todos os lados.

Eles não eram colocados de qualquer forma, pelo contrário. A forma da construção e do posicionamento de todas as coisas eram arrumadas com níveis altíssimos de detalhes e planejamentos.

James, após dar uma boa e minuciosa olhada por todos os meios de treino da sala, dirigiu sua atenção para uma área de prática específica, a ala de tiro ao alvo – que ficava no centro, entre a ala de bonecos de treino para armas corpo-a-corpo e uma grande parede de escalada – com grandes janelas que davam visão a alvos de madeira que permaneciam a diferentes distâncias das bordas das janelas.

A zona de prática para arqueiros era algo bem visto por James, que logo sacou seu arco e o empunha em mãos, já puxando a linha de ferro da arma com um prazer em manuseá-lo novamente.

— Você pode usar a zona de treino até a reunião dos capitães acabar. — Disse o guarda que acompanhava James, podendo ver a empolgação do arqueiro perante a grande e bem feita sala de treino.

— Muito obrigado. — James agradeceu, já se dirigindo a primeira janela.

O alvo estava a poucos metros do arqueiro que já calculava onde iria atirar.

O objetivo era claro e previsível: acertar o ponto vermelho central que estava pintado no meio de um bloco de madeira preso em um feno que já estava enfeitado de flechas.

A calmaria assumiu a mente de James. Aquele desafio estava em um nível tão básico que era um insulto a suas capacidades, mas não era algo a reclamar.

James tinha passado as últimas duas semanas quase sem atacar com sua arma, a única lembrança de ataques feitos com um arco foi o primeiro direcionado no crânio do demônio.

Em sua mente, suas habilidades estavam enferrujadas, mas ele não sabia dizer ao certo. Ao mesmo tempo que ele sentia que ia errar, uma voz interna o encorajava, como uma consciência própria que residia dentro de si.

A mente fria e calculista, ignorou o mundo ao seu arredor e foca no ponto vermelho.

Os dedos calmos soltam a linha de metal e com isso o arco encurva vagamente por uma fração de segundos – exatamente igual a um arco de madeira.

Um impacto pequeno foi escutado pelo guarda, que virou sua cabeça para James de relance. Ele havia perfurado o alvo com precisão.

O arqueiro, pouco impressionado, deu alguns passos para o lado – suficientes para visualizar o próximo alvo – e se posicionou na segunda janela.

O alvo desta vez era menor e estava mais longe, quase que três vezes mais distante do que o anterior. Porém, teve o mesmo destino.

O suor escorreu da testa do arqueiro, que afrouxou seu manto sujo, deixando sua careca a mostra, quase que reluzente devido aos fluidos corporais.

A expressão de surpresa do guarda foi escondida por seu elmo, mas seu pequeno gemido não.  Ele ecoou pela sala suavemente e logo morreu, mas foi ignorado por James, que repetiu a ação e se dirigiu para a terceira janela.

Porém, era nessa que um pequeno problema surgiu.

Seu alvo era tão pequeno que quase não conseguira ver, mas esse era o menor problema do caso. Sua principal dificuldade era o centro que já havia sido acertado.

Uma flecha de um soldado já se localizava onde James queria enfiar a sua.

Algum soldado já havia acertado aquele ponto, mas ficou óbvio que foi fruto de puro treino. O lugar em volta possuía lascas de flechas que erravam a trajetória e acertaram as paredes. O próprio alvo parecia já ter marcas semelhantes.

A flecha no centro seria considerada o troféu máximo. Aquilo simbolizava que alguém tentou tanto ao ponto de conseguir aquele feito. Um alvo a quase cinquenta metros de distância foi acertado perfeitamente no seu centro por um soldado dos Cavaleiros Negros.

Como sinal de respeito, James olhou para aquilo com grandeza, reconhecendo o poder e a habilidade do anônimo que conseguiu aquilo, mas o passado era passado.

As mãos atentas e frias foram comandadas pelas pupilas dos olhos de James, que estavam focados completamente na ponta da flecha que já havia sido perfurada.

A voz de sua cabeça começou a abraçar seu espírito de uma forma que ele nem conseguia explicar.

Sentindo um calor dentro de sua armadura – que tinha certeza que isso não tinha influencia com o tempo local – forçando os nervos dos punhos, ele direcionou a mira.

O puxar da flecha foi feito com mais força do que o normal e o posicionar do arco, um pouco acima do alvo. A trajetória foi calculada com pura matemática aplicada nos ângulos perfeitos que James previu mentalmente a trajetória da queda da flecha.

Todo esse esforço inútil por um objetivo chulo foi o suficiente para fazer a flecha viajar em uma velocidade insanamente rápida e rasgar a flecha antiga no meio.

Marcando agora que James era o detentor do recorde local.

— Incrível! — Exclamou o guarda, se aproximando perto até demais, enquanto o arqueiro ainda focava no alvo.

— Obrigado... — James relaxou o corpo para trás, após o forte esforço mental e físico. — Não foi nada demais.

O silêncio, que se instalou após um breve descanso de James, foi quebrado por Kaplar, que abriu a porta da sala de treino, o mesmo estava acompanhado de um guarda-costas.

 A visão de James suado e cansado se espreguiçando nas janelas da ala de tiros foi a primeira coisa que ele viu, mas o mesmo logo ficou em uma postura de respeito ao comandante local.

Kaplar andou lentamente até James, seguido dele veio um guarda-costas que manteve uma certa distância.

— Senhor, esse homem é incrível! — Exclamou o cavaleiro que estava observando James. — Acertou três flechas certeiras, sem errar nenhuma.

— Bom, bom... Muito bom. — Afirmou Kaplar impressionado, mas escondendo todas suas emoções com seriedade. — Meus caros, nos deixe a sós por alguns minutos, eu sairei quando terminar de discutir com esse homem.

Os dois guardas se entreolharam estranhamente, mas claro que seus rostos não ficaram aparentes devido seus elmos.

— S-Sim senhor! — Exclamaram os dois, batendo com o punho no peito da armadura, exatamente onde o brasão de cavalo estava. Logo em seguida, ambos deram as costas para os dois e os deixaram a sós naquela ala de treino.

Após perceber que estavam a sós, a conversa se iniciou.

— Jameson, já decidimos o que vai acontecer com você. — Afirmou o Kaplar, andando calmamente na direção do arqueiro.

— Comigo? — Questionou o arqueiro, ainda um pouco cansado.

— Você vai com meu filho Aquiles para Civitas numa escolta, lá vocês dois deverão proteger Bellator até se encontrarem com um amigo de confiança, seu nome é Ortros. – Entregando papéis a James, Kaplar manteve a postura a todo momento. – Mas é claro, você também pode recusar essa oferta. Nisso você sai livre, mas de preferência sugiro que saia do país se for o caso, é fácil pegar má fama por aqui.

— Parece uma boa ideia ficar aqui e ajudar na escolta visto por esse ângulo. — Afirmou o arqueiro, recompondo a postura. — Vou ter comida e bebida paga por vocês?

— Sim, já pedi para Ortros preparar aposentos para você e Aquiles no castelo de Civitas.

— Só algumas perguntas antes de eu aceitar a oferta, se me permite. – James indagou formalmente.

– Claro, pergunte à vontade. – Kaplar cedeu calmamente.

– Primeiramente quem são esses tais de “Ortros” e “Cérbero” que falaram no salão agora pouco?

Kaplar hesitou um pouco em falar, mas logo respondeu, pois sabia que aquilo iria aumentar suas afinidades com o arqueiro.

— Cérbero e Ortros são irmãos gêmeos e os soldados mais fortes que temos relações. — Afirmou Kaplar, em um tom que fica evidente a seriedade. — Os dois eram Cavaleiros Negros, mas se “aposentaram” do clã. Cérbero virou caçador e protetor do rei no reino de Civitas. Ortros virou uma espécie de diplomata que substitui o rei. Os dois são de minha confiança e em algum momento eu deveria lhe informar isso.

James entendeu o assunto e rapidamente assimilou o que foi respondido.

– Certo, a coisa que eu mais quero saber... – Ele indagou receoso com a possível resposta. – Como vocês sabem informações sobre minhas intenções? Digo, qualquer outro reino poderia me deixar preso ou me executar, porque com vocês fora diferente?

— Cérbero veio aqui na semana que você ficou preso, ele usou magia para perceber isso.

— O que? — Perguntou o arqueiro, assustado e curioso.

— Ele consegue detectar pensamentos e informações de pessoas por meio de magias. Quanto mais tempo ela é usada, mais conseguimos sugar de pensamentos e afins.

 — Certo... – Murmurou James, incomodado com a invasão de privacidade básica que eles haviam cometido.

— No seu caso, usamos por cerca de dois dias. O reino de Civitas também usou ela recentemente. – Kaplar afirmou, um pouco pensativo. – Eles usaram disso para selecionar e treinar um grupo de pessoas, conseguiram até mesmo achar um draconiano vivo.

— Draconiano... – Murmurou James, pensativo e desconfiando vagamente da resposta. – Acho que só tenho mais uma pergunta.

— Diga ela, então.

— Porque todos parecem não gostar de Aquiles? Mesmo ele sendo um capitão, ele parece ser uma espécie de estranho, fora as ofensas disferidas na corte.

— Bem... – Kaplar deu um breve suspiro de cansaço e tristeza antes de falar. — Aquiles não é meu filho, como eu disse, ele é adotivo.

— Continue...

— A cerca de vinte anos atrás, na época que eu ainda lutava nos campos de batalha, tínhamos acabado de destruir um acampamento de bandidos. – Kaplar começou a se lembrar e explicar calmamente a história. – Recolhi meu grupo, estávamos prontos para sair do acampamento. Foi então que eu vi em meio aos escombros das cabanas uma criança escondida.

– Um elfo ruivo? – James perguntou, já ligando pontos da história.

– Um dos mais raivosos, ele queria me bater e me atacar com uma lasca de pedra. Meus homens quase o executaram, mas eu acabei por trazer ele conosco. – O bebê Aquiles era uma figura estranha na mente de Kaplar, mas que ainda era visível pelo mesmo. – Após retornarmos para Monssolus, eu deixei a criança nos cuidados do orfanato local, mas tive que o retirar de lá. Ele exalava um comportamento predatório e queria bater em todos as crianças gratuitamente. Dá para imaginar? Um fedelho de cinco anos se achando o maioral?

— É algo cômico de se imaginar, realmente. — Respondeu James, ele tinha um leve sorriso em seu rosto.

— Não tive escolha, ele não tinha onde morar e o jogar no mundo ia ser crueldade, eu mesmo adotei o pivete no final. – Kaplar riu de forma nostálgica. – Após uma série de sermões e de castigos, ele meio que se doutrinou a seguir os Cavaleiros Negros, ele se dedicava cada vez mais para ser digno de ser um e abandonar o passado de filho de bandidos.

O olhar do comandante mudou para a sala do local.

– Não importava a situação, clima ou dia, ele sempre esteva aqui nessa sala. — Kaplar começou a apontar ao seu redor de forma animada, lembrando dos momentos com seu filho. – Levantando peso, treinando combate corpo-a-corpo, escalada, flexões, entre outras inúmeras coisas. O tempo passou rápido e com ele Aquiles se formou e ganhou o título de Cavaleiro Negro em meados de seus dezoito anos.

— É só isso? — Perguntou James, não muito impressionado. — Não vejo motivos para que os outros cavaleiros o ridicularizem.

— Não, não foi só isso... — Respondeu Kaplar, perdendo o ânimo levemente e voltando sua atenção ao arqueiro. — Em sua primeira grande missão, ele partiu em uma viajem de reconhecimento em alto mar junto da Quarta Divisão, o grupo dele foi atacado por um ser misterioso e apenas ele sobreviveu. Ele acabou voltando para a costa em completamente acabado depois do tempo. Supostamente, toda a quarta divisão acabou falecendo com a exceção dele, isso lhe deu uma fama de azarado e trazedor de má sorte, além é claro, de boatos estúpidos de traição que vieram depois como consequência. Mesmo com isso, eu sabia que ele ainda estava do nosso lado, pude confirmar esse fato com Cérbero tempos depois, mas ao que aparenta, ele sofreu uma amnésia dessa parte da vida.

— Então, todos têm medo e receio de trabalhar com ele por causa de sorte e azar?

— Sim, até mesmo os novos recrutas sabem da história por trás da Quarta Divisão, a evitando completamente. Pela hierarquia e mística ele virou o capitão da Quarta Divisão.  Eu até cogitei tirá-lo de lá ou mover alguém a força para divisão, mas descartei essas opções. – Kaplar finalizou de forma depressiva. – Acho que ele encara a vida como no orfanato ainda, com todos o odiando e apontando o dedo por nada. No fundo tudo que ele deve querer é alguém que genuinamente esteja ao lado dele. Me dói um pouco saber que eu não vou ser essa pessoa devido a afazeres como líder do clã e acho que não tenha tempo de vida para isso.

— Então vou ter que trabalhar com ele.... — Afirmou James, pensando em voz alta, reconhecendo o caso de Aquiles. — Bem o que é um azar a mais na minha vida?

Kaplar sorriu para o arqueiro.

— Então aceita o meu convite?

— Vou lhe responder com outra pergunta.

James guardou o arco, o pendurando em suas costas por cima de seu sujo manto branco.

— Quando partimos?

Por Tisso | 05/05/20 às 20:15 | Ação, Aventura, Fantasia, Sobrenatural, Magia, Mitologia