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Capítulo 16 - A Raça Nêmesis

Evalon: os Seis Lendários (E6L)

Capítulo 16 - A Raça Nêmesis

Autor: Tisso | Revisão: Matheus Freitas (Leia SZPS)

Um gigantesco estouro ecoou pelos campos verdes dos arredores do forte, chamando de imediato a atenção dos três que estavam treinando.

Cérbero estranhou e rapidamente sentiu a insana alteração de energia no ambiente, só isso já lhe fez confirmar um demônio no local.

A origem do barulho foi rapidamente identificada pelos três.

— Acho que vamos ter que terminar essa sua luta mais tarde. — A figura coberta pelo manto vermelho escuro começou a correr em direção a vila.

O paladino e o ladino rapidamente recolheram seus equipamentos e começaram a correr junto com Cérbero, que já formava em seu rosto o clássico e assustador sorriso psicopata de sempre.

No trajeto, os dois perceberam a diferença absurda de velocidade entre eles. Cérbero era quase que o triplo de vezes mais rápido que Varis, o ladino por si só já estava metros na frente do paladino de armadura pesada e mesmo assim nem chegava perto do caçador.

Cérbero aparentava estar impulsionado por um ânimo estranho, algo que nem Varis – que passara seus últimos meses o ajudando – poderia dizer ao certo o que era.

Depois de alguns bons minutos, os três chegaram na vila que já estava completamente tomada pelo fogo vermelho escarlate de origens demoníacas.

Os telhados de palha e algumas estruturas de madeira do local se desfaziam na frente deles, que tentavam encontrar um foco em meio ao pânico.  As pessoas gritavam em agonia, algumas com ferimentos e outras sendo carregadas.

— O que a gente faz!? — Gritou Edward, ofegante para o caçador que, inquieto, procurava o causador de tudo aquilo.

— O orfanato! — Exclamou Cérbero, ao reparar na alta aura que havia na estrutura do orfanato da vila.

— O que!? — Questionou Varis, confuso.

— Alguma coisa causou isso, ela está no orfanato! — Respondeu Cérbero, enquanto juntava as mãos preparando um feitiço. — Vão para lá! Eu cuido do fogo!

Os dois fizeram um sim com a cabeça e seguiram para o orfanato.

O paladino avançou mais rapidamente e com a preocupação no âmago de seu ser, pois temia qualquer ferimento em sua filha recém adotada.

Cérbero reuniu energia em suas mãos, com uma aura dourada que puxava o vento para si, fazendo daquilo, uma esfera de ar quase invisível. Com uma concentração absurda, o caçador arremessou o feitiço para cima, fazendo as nuvens se aglomerarem em um único lugar, ocasionando uma forte tempestade.

Os pingos de água caíram com rapidez, fazendo o fogo se esvair aos poucos e o pânico nas pessoas baixou gradualmente.

— Rápido! — Gritou Cérbero para a multidão, que parou vagamente para lhe ouvir. — Confiram se não há ninguém nas casas e fujam para o forte!

O pedido foi atendido pelos moradores, que correram rapidamente da cidade destruída.

— Muito bem... — Proferiu Cérbero, arrumando levemente os cabelos molhados pela chuva. — Eu sei que algum demônio está aqui! Me mostre sua cara antes que eu exploda toda essa cidade para isso!

Em meio às brasas que ainda não se apagaram com a chuva, uma figura vermelha musculosa surgia de um dos telhados das casas.

Ele tinha a pele escarlate e fulminante como o fogo que saía de seus ombros. Também usava um elmo negro, que deixava escapar seus quatro chifres de bode. A lhe rodear, estava uma calda vermelha parecida com um chicote, que também expelia pequenas labaredas.

Suas unhas pontudas saiam de algo que podia se assemelhar a uma mão humana de escalas desproporcionais.

— Nível oito, suponho. – Afirmou o caçador, olhando a figura do inimigo sem medo ou pavor.

– Fuja, humano... – O demônio gritou, mostrando a presença de sua voz bizarra de dezenas de gritos de sofrimento múltiplos. – Você só encontrara a morte de minha parte! Fuja e serás poupado!

– É, foi exatamente o que os últimos disseram... – Cérbero entrou em uma vaga posição de combate enquanto deixava seu sangue fluir. – Ifrit’s são um caso raro, principalmente um como você. Parece mais gordo e sem assas, fora que um elmo não ajuda muito sua aparência.

As chamas eram manifestadas e apagadas devido a chuva que só ficava mais forte com o tempo.

O demônio olhava para a figura sorridente do caçador que aumentava aos poucos. Era amedrontador, até mesmo para um demônio que era um ser do inferno.

A respiração pesada e quente do inimigo criava nuvens de fumaça preta que saiam de seu elmo e sumiam ao ar.

Suas garras aumentavam de tamanho à medida que adquiria raiva, suas veias saltavam de seus braços, formando manchas escarlates em sua pele que pulsava de energia demoníaca.

O sentimento de ódio havia dominado o lugar.

Os dois seres estavam se encarando a quase um minuto, ambos esperando o primeiro ataque ser dado.

Cérbero chegou ao máximo de seu sorriso e a sua consciência era tomada por um sentimento de vingança quase que irracional.

— Bem... que isso sirva de exemplo para seu senhor... — Afirmou Cérbero com um tom vagamente sério, algo que era incomum para o mesmo, que não falava daquele jeito a tempos.

O demônio não entendeu a suposta ameaça feita, mas decidiu ignorar e efetuar o primeiro golpe.

Um salto feito para os céus resultou em um movimento que criou uma concavidade, que tinha como objetivo cair em cima do caçador e rasgá-lo ao meio com suas enormes garras.

A mente calma e calculista de Cérbero já previu tanto o objetivo do demônio tanto seu local de queda.

Os passos calmos do caçador o levaram para o ponto exato da aterrissagem do inimigo. Ele iria atingir o chão em alguns segundos pela contagem mental feita por Cérbero.

Uma pisada forte realizada pelo caçador fez a terra se remexer e expelir uma básica e forte magia elemental. A mistura de lama e barro do solo molhado pela chuva da vila, em um passe de mágica se secou e cuspiu um tacape de pedra maciço que foi pego imediatamente por Cérbero.

A arma improvisada foi empunhada pelo caçador, que depositou mais energia mágica na arma, a deixando mais e mais resistente.

Quando chegou o momento, Cérbero usou de todo poder da arma para rebater o demônio de forma certeira como uma bola de baseball. Acertando em cheio o elmo do demônio, o mesmo foi projetado a vários metros de distância.

O tacape improvisado se quebrou logo em seguida e o toco que sobrou do punhal foi descartado pelo caçador.

O corpo do demônio, voou por mais algum tempo até cair no final da rua da vila, que agora possuía uma imensa cratera.

— Como? — Se questionou o demônio em sussurros. Ele já havia perdido seu elmo na queda e estava mostrando sua horrenda face humana deformada com olhos brancos sem vida. – Não tínhamos relatos de alguém tão forte...

— O seu tipo já teve rostos mais bonitos. – Caçoou o caçador, rindo vagamente enquanto se aproximava. – Vocês do inferno deveriam se esforçar mais, mandar demônios tão fracos para causar tumulto? A troco de que?

O demônio riu para o caçador, que não entendeu de imediato o que aquilo queria dizer.

— Não estamos aqui para isso. — Corrigiu o inimigo, se levantando com dores e dando uma pequena risada no final de sua frase.

— “Estamos”? — Questionou Cérbero enquanto lembrava de Edward e Varis que estavam no orfanato, logo que ele virou sua cabeça, reparou na imensa aura que envolvia a estrutura. — Bastardo!

Esse xingamento marcou o próximo golpe dado por Cérbero.

-- Ziada... – Ele proferiu para si mesmo enquanto envolvia seu corpo em um brilho dourado.

Logo Cérbero efetuou uma investida surrealmente rápida, seguida de um soco direto na costela que atingiu o demônio em questão de segundos. O corpo do inimigo foi arremessado para trás com uma força incrivelmente superior ao golpe anterior.

O ser vermelho havia se tornado um projétil gigante que cortou o ar enquanto emanava seu fogo e tentava se estabilizar, tendo seu fim somente ao se chocar com uma casa que ainda estava parcialmente inteira, a quebrando completamente suas paredes que “amorteceram” o impacto.

Os escombros soterram o inimigo, o ferindo ainda mais, deixando inúmeras marcas de sangue escarlate pelo chão da residência destruída.

O caçador se recuperou do seu surto de raiva e de frustração momentâneos. Caminhando lentamente a construção destruída e mantendo a guarda alta no processo ele buscava seu inimigo.

— O que vocês vieram fazer aqui? — Perguntou Cérbero, encarando os escombros com a raiva no olhar, algo que ia além de qualquer ódio já demonstrado por ele durante os últimos meses, talvez até dos últimos anos. 

O demônio começou a tirar os escombros de cima de si, revelando uma criança que ele havia protegido com seu corpo todo ferido e amassado, principalmente no lugar que recebeu o soco, onde havia um buraco ocasionado da quebra violenta de suas costelas.

— Quer perdão agora? — Reclamou o caçador, preparando um novo ataque na direção do inimigo.

 — Se você se aproximar, eu mato a criança! — Ameaçou o demônio levemente trêmulo, iniciando uma pequena chama em sua mão e a apontando para o rosto do pequeno menino que estava assustado perante tudo aquilo.

Um passo calmo foi dado em sua direção.

O menino já estava trêmulo e assustado, mas aquilo o fez fechar seus olhos de desespero, ao mesmo tempo que o demônio se espantava com tal ação.

— Não se importa com a vida dele!? – Perguntou o demônio levemente intimidado e trêmulo com as ações do caçador.

— Não entenda mal.... — Respondeu Cérbero, trazendo seu tom entediado de volta em meio ao resquício de raiva que possuía. — Eu não já cheguei num ponto que seria hipocrisia dizer que eu ligo para a vida dessa criança.

— O que!? — O demônio se espantou instantaneamente, ficando mais trêmulo e deixando a magia que estava se formando mais instável.

— Na realidade, eu não me importo com essa vila, com esse reino, muito menos com esse país... – complementou Cérbero, rindo vagamente enquanto recitava cada palavra, focando seus olhos profundamente nas íris brancas sem alma do demônio. – Se eu pudesse trocar tudo isso por uma chance de lutar com seu chamado “mestre”, eu trocaria sem hesitar. Só pediria o direito de levar um acompanhante, seria mais divertido se a luta fosse injusta, não?

A criança começou a chorar de medo, mas Cérbero a ignorou e continuou a falar.

— Então, por mim, pode matá-la. – Parando até mesmo de se mover, Cérbero finalizou sua sentença cruzando os braços e os observando de forma sádica.

O arder de raiva do demônio o fez completar a ação e uma mini explosão de fogo ocorreu em sua mão.

Porém, algo inesperado ocorreu para ambos.

Uma espada lhe atingiu o ombro direito, quase acertando a cabeça da criança, fazendo-o cancelar a magia involuntariamente devido a dor.

Uma forte corrente de ar emanou da lâmina espada, percorrendo o peito do demônio e explodindo em um estouro de vento surreal.

Isso fez a criança ser arremessada para cima, extremamente longe do demônio.

Em meio a chuva e aos ventos que se instauraram de uma hora para outra no local, a figura branca reluzente de um cavaleiro foi vista se aproximando de forma gloriosa.

Sem uma de suas seis espadas e com uma aura mágica de tamanho considerável lhe rodeando, Parysas se revelou esboçando uma face de raiva para intimidar seus inimigos.

— É por esses motivos que você não consegue invocar magias divinas! — Reclamou Parysas em meio a chuva e o vento.

A criança, em queda livre, aterrissou suavemente nos braços estendidos do paladino real.

— Preciso lembrar quem te ensinou a usar magias? — Resmungou Cérbero, se colocando em uma posição superior à de Parysas, enquanto desviava o olhar para o mesmo.

A criança sorriu para Parysas em forma de agradecimento.

Porém, seus dentes eram pretos como carvão com fios de sangue vermelho escarlate, que foram imediatamente reconhecidos pelo paladino real, a natureza maldita da criatura que estava segurando entregou sua identidade.

Uma invocação demoníaca. Uma duplicata de uma criança usada como isca.

Cérbero já previu isso antes mesmo do paladino real se revelar. O mesmo se decepcionou quando percebeu que Parysas realmente achava que aquele ser era uma criança.

— E é por esses motivos que eu tenho que cuidar de tudo. — Reclamou Cérbero, enquanto corria em direção ao demônio e forçava mais a espada que havia lhe perfurado.

Esse ato o faz perder energia devido à alta capacidade física perdida com a dor do corte somando isso a luta anterior e com o ataque da espada, em segundos a “criança” no colo de Parysas virou poeira negra que foi levada pelos ventos e logo sumiu deixando o paladino real levemente envergonhado com o erro.

— Eu me viro daqui em diante! — Gritou Cérbero, arrancando e jogando de volta a espada suja de sangue para Parysas que a pegou e embainhou rapidamente. — Edward e Varis estão no orfanato! Acho que eles estão com uns problemas lá!

O caçador se virou de costas para o paladino real e voltou o foco para o demônio enquanto ouvia os passos de Parysas se movendo até o orfanato.

O inimigo estava sangue excessivamente pelo corte da espada e já não conseguia se manter de pé, algo realmente deplorável se visse por cima.

Sem preocupações, Cérbero andou até o demônio, deixando apenas as mãos preparadas para uma defesa rápida.

Rapidamente, o ser infernal direcionou sua mão para desferir uma rajada de fogo, mas tal magia foi repelida naturalmente, ficando centímetros a frente do caçador, sem nem sequer o encostá-lo, pelo contrário, ela acabou por voltar para dentro de sua mão em certo ponto que resultou numa lesão interna.

– Acho que não tenho muito o que me preocupar. – Cérbero ergueu sua mão e em um movimento surrealmente rápido, ele agarrou o pescoço do demônio com extrema facilidade, pode-se dizer que seus dedos alongaram para envolve-la melhor. – Eu sei que você está vendo pelos olhos dele, seu maldito...

A vingança e raiva voltaram a imperar no corpo do caçador, que apertava cada vez mais a garganta do demônio.

– Eu não sei onde você está, o avatar que está usando agora ou sequer o plano que está... – Cérbero começou a emanar cargas enormes de magia branca em sua mão ao mesmo tempo que a apertava. – Mas eu não esqueci do que você fez, do que criou, do que me tirou e suponho que estaria rindo disso assim como eu estaria. – o sorriso do caçador se mesclou em uma faceta de horror, excitação e prazer sádico. – Aproveite os tempos de paz e reze para que eu morra por algum milagre e vá para o tal “paraíso”, se der o azar de eu ir para o seu “inferno”, vamos ter uma boa conversa privada e adiantada.

O extremo uso das magias simplesmente carbonizou o corpo do demônio que, em segundos, virou cinzas, igual a criança. Deixando o caçador envolto a chuva, fumaça e destroços, sozinho com seus sentimentos novamente.

Por Tisso | 12/05/20 às 17:22 | Ação, Aventura, Fantasia, Sobrenatural, Magia, Mitologia