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Capítulo 17 - Honra em Combate, Vida em Espirito

Evalon: os Seis Lendários (E6L)

Capítulo 17 - Honra em Combate, Vida em Espirito

Autor: Tisso | Revisão: Matheus Freitas (Leia SZPS)

A porta de madeira do orfanato foi destruída com um forte e violento golpe de espada de Edward, que abriu caminho pela construção de dois andares, o fogo se alastrava pelos móveis e os queimava, mas as partes de pedra da estrutura se mantinham em pé apesar das chamas ardentes.

Aos poucos, a fumaça tóxica tomava conta, fazendo o oxigênio do lugar ficar cada vez mais escasso.

Mesmo com o pânico ao seu redor e as desvantagens do local, Edward se manteve forte e de peito erguido perante as dificuldades que deveria encarar para cumprir o objetivo em questão.

— Precisamos salvar as crianças! — Edward gritou, apontando com sua espada para a escada e corredor que davam ao dormitório das crianças.

Sem nem ao menos uma resposta de apoio, o paladino já se pôs a correr na direção que tinha apontado. Suas preocupações só aumentavam à medida que o mesmo sentia a energia local aumentando cada vez mais e mais, se expandindo a níveis acima do que já havia presenciado com Parysas. Porém, as duas possuíam uma estranha sincronia.

— Certo! — Concordou Varis, o seguindo rapidamente.

Em meio aos degraus que rangiam ferozmente, ameaçando desabar a qualquer momento, Varis acabou parando completamente.

Sua respiração começou a pesar, e nenhum de seus músculos conseguia se mexer. O ladino acreditava que aquilo era receio, mas logo excluiu essa possibilidade quando sentiu a irritação de seus olhos tomar conta devido a pausa eterna das pupilas que se recusavam a piscar.

Por milagre, o mesmo ainda conseguia sentir o ar a ser puxado e expelido de seus pulmões, mesmo que esse ar estivesse contaminado com fumaça, o que talvez resultasse em asfixia.

A dor em sua alma tomou conta aos poucos. Sentindo uma tormenta absurda e invisível, ele começou a dar tudo de si para que pelo menos conseguisse mexer um dedo, mas não teve nenhum sucesso. 

O ladino se encontrou desesperado, completamente imóvel na escada enquanto Edward a subia.

Nos últimos degraus que davam em um corredor de pedra com escombros de madeira caindo, o paladino olhou para trás e percebeu Varis imóvel na escada.

— Varis! Vamos! — Reclamou Edward, chamando a atenção do ladino, mas recebendo o silêncio como resposta.

O olhar raivoso e preocupado do Paladino se fixou nos olhos negros e vermelhos do amigo que encarava o horizonte, nem ao menos mudando o foco de seu olhar.

— Varis! — Edward continuou a reclamar enquanto guardava sua arma e pensava vagamente em voltar as escadas e puxar o ladino, mas um ranger de porta chama sua atenção. Ele se virou rapidamente e de imediato viu um vulto preto a sair por ela.

— Ele não vai lhe ouvir... — A voz tomou o foco do paladino por completo, ele reparou de imediato que aquele era o dormitório das crianças.

Os gritos de ajuda dos pequenos que saia da fresta da porta ecoavam tanto pelo orfanato e pela mente de Edward, que deixou seus princípios de lado e deixara que a raiva tomasse conta de si naquele momento.

Quando a porta foi aberta por completo, ela revelou o inimigo. Um homem de dois metros coberto por uma capa preta que escondia completamente seu rosto.

Em meio à escuridão de sua face algo se destacava, dois brilhos vermelhos eram emanados em formato de dois riscos que se assemelhavam a dois olhos humanoides.

A aura que o mesmo possuía era sombria e densa, sentida friamente pelo paladino que, mesmo assustando, não aparentava medo ou receio, apenas força de vontade.

— A essa altura, o seu amigo elfo já deve estar em um estado semelhante ao de paralisia do sono. — O homem encapuzado afirmou rindo vagamente. Sua voz calma e doce era completamente diferente do demônio que hasteou fogo na cidade, mas não deixava de ser assustadora se vista de certo modo.

— Quem é você!? — Perguntou Edward, já preparando uma rota de ataque.

— Não importa quem eu sou. – o homem se aproximou cada vez mais do paladino. – O que importa é o que eu posso fazer. Saia antes que eu lhe entregue ao Senhor!

— Senhor? — O paladino naquele ponto já possuía um plano em mente, só faltava realizá-lo.

Os dois estavam parados com a distância de um pouco mais de 4 metros entre eles.

Edward acumulava sutilmente a energia mágica em suas mãos enquanto o homem de preto continuava encarando tudo.

— Não importa... — O brilho no rosto do ser começou a se expandir, criando labaredas roxas que tomaram completamente seus braços. Direcionando a magia para suas mãos, ele formou uma argola flamejante em pleno ar.

O fogo aos poucos estabilizou e se moldou em uma foice negra do tamanho de Edward. Sua lâmina curvada parecia poder cortar qualquer coisa de tão afiada. A energia mágica da mesma era extremamente poderosa.

— Se quer lutar, então, acabemos isso de uma vez. – O homem afirmou enquanto empunhava a arma.

Com apenas a mão direita, o homem de preto manuseou a arma.

Os dois se encararam rapidamente e começaram os avanços para o combate.

Rapidamente o inimigo se aproximou de Edward, que previu o ângulo de sua foice e a bloqueou com seu escudo, fazendo os metais se chocarem e emanarem pequenas faíscas.

Porém, somado com seu ataque com a arma, o homem de preto se aproximou perto o suficiente do paladino para dar um soco em seu escudo.

Uma enorme massa de magia foi emanada do punho do inimigo que, com apenas um movimento desarmado, jogou Edward meio metro para trás. Mantendo-o em pé, mas com sua defesa quebrada.

Novamente o homem de preto avançou e, com a defesa do paladino quebrada, ele não teve dificuldades em acertar em cheio sua armadura que recebeu um corte em seu peito tão potente que, além de atravessar o metal e a cota de malha, deixou a pele com hematomas.

Tal ataque fez Edward grunhir de dor. Ele olhou para seu peito e sentiu sua coagulação sanguínea mudar vagamente por baixo do peitoral de metal, Edward compreendeu o que deveria fazer. Sua mente focada em sentimentos agressivos não serviria de nada naquela situação.

Seus princípios eram proteger sua filha, mas o próprio reconheceu que isso era apenas uma máscara para seu real desejo. Edward queria matar o inimigo.

O simples perceber disso, bagunçou a sua mente de forma que bizarramente a colocou de volta no lugar.

O homem de preto realizou outra investida, mas dessa vez Edward sabia o que fazer.

Quando o inimigo estava a alguns centímetros de lhe acertar, Edward mergulhou com seu corpo e, com um gancho feito com seu escudo, golpeou o estômago do homem de preto.

A instabilidade e foco do paladino não alteraram apenas suas ações para algo mais rápido e lógico, mas sim estabilizaram suas magias.

Mesmo não revelando chamas como na luta com Varis, o gancho com o escudo foi um potente ataque mágico, tanto que resultou na projeção do homem de preto para o fim do corredor.

A foice do homem foi perdida em sua queda pela contração de seus músculos.

Edward, após ver o inimigo caído, pegou a arma negra, sentindo outra energia divina emanando dela – definitivamente não era o mesmo que ele sentia com suas magias, mas era vinda de algum Deus ainda vivo – e a jogou em direção ao homem de preto no final do corredor.

– O que? – Ele questionou, se recuperando do impacto e vendo sua arma a ser devolvida.

– Pegue-a. – Edward afirmou se estabilizando.

– Por quê? – Após realizar o pedido do paladino, o homem de preto o encarou confuso e receoso.

– A injustiça de lutar com um oponente desarmado mancha meus princípios e minha alma. – Afirmou Edward, reunindo energias para invocar uma magia de apoio. – Não poderia conviver comigo mesmo se cometesse tal injustiça.

– Humano... – O homem de preto voltou a posição de combate rapidamente. – Não irei ter piedade de sua alma, muito menos de seus conhecidos que serão esquecidos, mas digo-lhe que vai ser uma honra terminar essa batalha com você.

Edward reconheceu as crenças e princípios de seu inimigo, mesmo as repudiando completamente, ele não poderia culpá-lo por tê-las, mas também não podia permiti-lo realizar os objetivos impostos por ela.

Os destroços do telhado caiam próximos ao paladino, que os ignorou e continuou a recitar sua magia mentalmente.

Ainda em chamas, apesar da chuva, a madeira teve seu fogo sugado para as mãos do paladino, que expandiu sua aura para suas armas. Em questão de segundos, o escudo e espada de Edward foram envolvidos por uma pequena camada de um fogo verde esmeralda.

A respiração do paladino mudou de padrão, ficando mais instável e espaçada. Mesmo com seus 3 meses de treinamento excessivo, a magia que conseguia controlar ainda era fraca se não fosse forçada pelo usuário.

Dividir as suas capacidades em três ou cinco vezes ao dia a tornava meio fraca, mas usando toda a capacidade da magia de uma única vez a tornava extremamente forte.

Porém, as limitações físicas de Edward e o que a situação pedia naquele momento induziam a ideia de usar toda capacidade de uma única vez.

O paladino correu em direção ao homem de preto, tendo sua espada chocada com a contra lâmina da foice de seu inimigo.

Com o colidir das armas, o fogo verde sobrepôs a aura da foice.

O cheiro de metal queimando se misturou com a foice ficando extremamente vermelha com detalhes laranjas.

Em questão de segundos, a espada acabou por derreter a lâmina inimiga, transformando a foice em um bastão com uma lâmina curta e derretida.

Após terminar o corte que derreteu a arma inimiga, Edward finalizou seu corte rasgando vagamente o manto negro do inimigo.

O simples rasgo da veste foi o suficiente para que as chamas verdes se espalhassem pelas suas roupas, as queimando rapidamente.

Antes que sua roupa o ferisse, o homem de preto arrancou rapidamente seu manto e o jogou para longe, revelando sua face.

Ele era de fato um humano, mas seu rosto possuía tumores em sua testa como se fossem chifres em formação. Decorando sua face, estavam veias roxas e uma pele azulada, como se o mesmo estivesse perdendo oxigênio para estar naquelas condições.

– Então os brilhos eram de fato teus olhos... – Comentou rapidamente Edward, mantendo a postura de combate.

O homem de preto, agora com a face a mostra, empunhou o cabo da antiga foice a envolvendo novamente em chamas. Após alguns segundos ele a transformou em uma lança improvisada.

Edward percebeu as intenções do inimigo, que disparou em sua direção com a lança mirada em seu ombro. No último instante, o paladino bloqueou o ataque com seu escudo, mas um movimento inesperado lhe pegou de surpresa.

Após atingir o escudo de Edward, o homem de preto manuseou a lança como se fosse um bastão, pegando em seu meio e a girando de uma forma que seu final terminasse em um local privilegiado.

Após o posicionamento, o final da lança golpeou a armadura de Edward fortemente, quase conseguindo a perfurar.

A deformidade na armadura causada pelo impacto arranhou internamente a pele do paladino, provocando mais alguns cortes, que foram somados com o ferimento anterior.

Nisso as chamas de Edward começaram a ficar fracas e instáveis. A mente do paladino estava frustrada consigo mesmo.

Após três meses de treinos diários, dedicando até mais de oito horas por dia no treino da magia, tudo que conseguiu foi mantê-las estáveis normalmente, mas não sob pressão.

Ofegante e perdido em seus próprios pensamentos, o paladino desviou o olhar para a porta do dormitório. Ele percebeu de imediato um aglomerado de crianças, entre elas Crist. Todas estavam bem e em segurança.

Esse simples fato alegrou o paladino, que encarou novamente o inimigo.

Ele refletiu sobre o mundo em volta, sobre o que estava fazendo e sobre o que precisava fazer.

Respirar fundo, Edward largou sua arma e escudo.

Todos os pontos de incêndio do lugar viajaram em sua direção como nuvens de labaredas e fumaça. Seu escudo e espada perderam as chamas esmeraldas, em contrapartida, o mesmo efeito foi formado em seu punho direito.

O homem de preto arregalou seus olhos sem vida e segurou a lança precisamente, já prevendo o ataque do paladino.

Durou alguns segundos. Edward correu três passos e uma explosão de fogo o impulsionou para frente de maneira surreal.

Quando sentiu seu corpo novamente ele percebeu o buraco em baixo de sua costela a onde residia a lança do inimigo. O objeto não doía, mas ele não podia afirmar com certeza, afinal não sentia nada à sua volta.

Em sua frente, o homem de preto estava arregalando os olhos e cuspindo um sangue grosso pela boca.

Quando olhou para onde estava seu braço, Edward percebeu que havia afundado seu punho no coração do inimigo, tudo enquanto as chamas verde esmeralda o acompanhavam.

Aos poucos, a lança fincada em seu corpo estava virando cinzas, em sincronia o inimigo teve os batimentos cardíacos cessados.

O paladino desejava mais do que tudo se mover em direção aos dormitórios e ver sua filha, mas ao primeiro movimento dado com o pescoço, seu corpo desmoronou.

Olhando o teto desmoronado do orfanato, a chuva o molhava. O sangue misturou-se com a água vagamente.

As nuvens moldando-se em figuras abstratas foram as últimas visões do paladino que fechou os olhos involuntariamente e perdeu a consciência em segundos.

Por Tisso | 14/05/20 às 18:33 | Ação, Aventura, Fantasia, Sobrenatural, Magia, Mitologia