CAPÍTULOS
OPÇÕES
Cor de Fundo
CONTROLE DE FONTE
HOME INDEX
Capítulo 19 - Vamos para a Capital

Evalon: os Seis Lendários (E6L)

Capítulo 19 - Vamos para a Capital

Autor: Tisso | Tradução: Matheus Freitas (Leia SZPS)

O sol se pôs lentamente, marcando o final do dia.

As pessoas da vila agora estavam abrigadas no castelo em lugares totalmente improvisados até as casas fossem reconstruídas.

Diversos guardas foram enviados para vigiar cada canto da imensa construção de pedra, para evitar que demônios a invadam. Junto deles, Cérbero – que agora gastava parte de suas energias em uma aura que cobria o forte em uma camada de magia invisível – zanzava pelas salas sem muitas expectativas.

Ao final do dia, os quatro soldados especiais foram chamados para a sala do trono com a alegação de que o rei queria falar com eles para algo mais alarmante.  A brisa fria que passava pelas janelas de trás do trono real amedrontava os quatro, que sentiam um frio em suas espinhas.

Ao entrarem, eles viram o maior ato de desrespeito possível para qualquer reino.

Em meio as escadarias, cortinas, tochas, candelabros e decorações, estava lá Cérbero, deitado no trono real em uma posição confortável.

O caçador parecia bem-disposto a qualquer coisa, como se estivesse deitado lá apenas para desrespeitar os que consideravam aquilo um tabu por conta da hierarquia do reino.

Sua cabeça descansava encostada em um dos apoios de braço, enquanto seus pés estavam esticados no ar, tudo enquanto o mesmo fazia ilusões básicas com as mãos – como fazer uma nuvem chover ou um show de sombras – para se distrair.

Com um breve bocejo do caçador, o estopim para Edward foi atingido, transbordando de incômodo ao mesmo tempo que se sentia humilhado e ofendido, perante o homem que estava ridicularizando o lugar que havia lhe acolhido como paladino e lhe deu uma segunda chance de seguir a vida.

— Senhor Cérbero, por favor saia do trono real. — Pediu Edward, se segurando para não gritar de tanta indignação.

— Hum? — Cérbero virou o rosto lentamente para o paladino, que deu um passo à frente de seus companheiros. — Ah, vocês vieram...

— Senhor Cérbero, por favor, saia do trono. — Insistiu Edward, aumentando seu tom de voz.

— Ei, o que eu te disse sobre não me chamar de senhor!? — O caçador se ajeitou no trono, ignorando completamente o pedido do paladino.

— Cérbero...! – Proferiu Edward, rangendo os dentes e se aproximando mais do caçador.

Os olhos de Cérbero perceberam a raiva do paladino devido a sua postura, prevendo que provavelmente ele iria lhe atacar em último caso.

— Paladinos são todos iguais, não...? — Suspirou Cérbero, já pensando no seu próximo movimento. — Não podem ver uma coisinha que ofende seu deus que já ficam irritados, não que eu possa julgar, claro. – Ele finalizou com uma breve risada.

O punho de Cérbero se abriu completamente e, em uma investida extremamente veloz, o caçador se pôs na frente do paladino, cortando os dois metros que haviam entre os dois instantaneamente.

O movimento foi tão rápido que a mente de Edward entrou em branco, somente quando percebeu o toque em seu pescoço ele compreendeu o tinha acontecido.

Cérbero colocou sua mão no pescoço de Edward o levantando do chão vagamente. Em segundos o Paladino começou a espernear e a socar o braço que o deixava suspenso.

Os olhos do caçador adquiriram um brilho dourado e calmamente Edward parou de lutar, vendo isso, Cérbero afrouxou o aperto fazendo ele cair no chão inconsciente.

— Edward! – Gritou Voltten, que até aquele momento não tinha feito nada por receio. Porém, agora mesmo sem a confirmação, ele tinha certeza que Edward havia morrido em sua frente. — Glans, ajude-o!

O draconato, mesmo não entendo bem a situação e o que havia acontecido, decide ajudar se prepara para correr e atacar Cérbero.

— Não Glans! – Interrompeu Varis, que estava surpreendentemente calmo perante a situação.

— Você está louco Varis?! — Respondeu Voltten, assustado e indignado. — Ele o matou!

— Não, isso já aconteceu antes. — Respondeu o ladino, encarando vagamente os olhos preocupados do mago. – Só foi desnecessário levantá-lo com o braço.

— Cortesias não são desnecessárias, Varis. — Elogiou Cérbero, batendo duas rápidas palmas que ecoaram pelo salão e emitiram uma energia mágica direcionada a Edward. – Esses meses foram eficientes pelo visto, devo dizer que você passou de um idiota completo para um idiota vagamente formado.

Edward acordou dois segundos depois das palmas. Confuso ele recuperou a consciência lentamente e levantou meio cansado.

— Magia de sono, uma das mais fracas e simples de se aplicar. — Disse o caçador, voltando para o trono e se sentando nele por puro conforto. — Você foi tão fraco ao ponto de ceder a ela em poucos segundos. Três meses de treino e você aguentou segundos, venha se comparar a mim quando aguentar pelo menos um minuto. Agora volta para lá.

— C-C-Certo. — Respondeu o paladino, engasgando sozinho, ele passou a mão em seu pescoço e sentiu a falta momentânea de ar que a magia proporcionou após seu efeito ser dissipado.

— Muito bem... — Cérbero focou sua visão nos quatro. — Agora vamos para a explicação.

Todos se acalmaram perante a figura do caçador que se provou ser dominante.

Edward se levantou recuperando a estabilidade e conseguindo dar alguns passos, logo voltou para perto de seus amigos.

— Crist possui um grande poder mágico, mesmo não sabendo usar magias em si... – Cérbero começou a falar calmamente.

Os três elfos ficaram surpresos, Edward menos que os outros, mas mesmo assim, seu espanto era visível.

— Quem ser Crist? — Perguntou Glans.

— É a filha adotiva do Edward. — Afirmou Voltten pensativo.

— Cerca de um mês atrás, outra pessoa com a mesma capacidade magica foi avistada em Monssolus. — Cérbero continuou a explicar, ignorando a face de surpresa dos três elfos, junto com a expressão de dúvida de Glans. — O decidido para essa pessoa foi a sua transferência para Cartan a onde ela está agora.

— Quer dizer que vão enviar Crist para Cartan também? – Questionou Edward, preocupado em se separar de sua filha adotiva.

— Na verdade vocês vão levá-la para lá. Falta de mão de obra, sabe como é, não?

A revelação causou um leve choque em todos, que não esperavam ter que pisar em um lugar tão importante.

Varis até mesmo ficou receoso sobre o que iria encontrar em um lugar tão movimentado, com diversas pessoas de diversos lugares como a capital daquele país.

— Junto de vocês, Parysas e Sansa também vão. — Prosseguiu Cérbero, enquanto deixava aparente um tom de desânimo e raiva. — E eu, infelizmente, irei ficar aqui, protegendo Argel de o que quer que venha atrapalhar.

Varis sorriu e riu vagamente, encarando Cérbero de forma irônica.

— Então eu estou livre de suas missões? – Disse o ladino com ânimo, caçoando calorosamente do caçador.

— Sim. — Disse o caçador levemente incomodado e talvez até irritado. — Mas não se ache tanto assim, no momento que vocês pisarem na capital, estarão a serviço do meu irmão...

— Ortros? – Perguntou Edward, se lembrando das citações feitas por Parysas que comentava sobre o gêmeo do caçador ocasionalmente.

— Alguém fez a lição de casa. — Elogiou Cérbero, debochando levemente do paladino. — Ele é idêntico ao Argel em questão de aparência, com a exceção de uma coisa.

O caçador apontou para o canto de seu olho esquerdo, o arregalando completamente.

— Ele possui uma cicatriz entre seu olho esquerdo e sua orelha, e talvez ele tenha uns quilos a mais ou a menos. Para falar a verdade o Argel envelhecendo e engordando dificulta no disfarce.

— Sabe descrever como ele é? — Perguntou Varis, visando buscar uma melhor imagem do irmão que, anteriormente, era pouco mencionado por Cérbero.

— Bem... – Cérbero passou os dedos no pelo facial que ele chamava de barba, apesar de serem muito curtos para serem considerados uma. — Ele tem uma cara de velho, uma barba marrom, relativamente grande e....

Cérbero parou de pensar por um breve instante.

— Eu falei que ele era parecido com o Argel seu imbecil! O que mais você quer saber? — Implicou o caçador levemente irritado.

Em meio a discussão dos dois, Edward e Voltten se questionaram sobre a parte obvia da questão. Se Ortros era um gêmeo de Cérbero, como ele conseguiria ser semelhante a Argel – visto que, ambos possuíam inúmeras diferenças como fisionomia do rosto, altura e proporções de diversas áreas do corpo.

“Magia de alterar aparência? ” Questionou mentalmente o paladino. “Ortros é tão forte quanto Cérbero, pelo menos é o que Parysas diz, logo ele deve usar feitiços de ilusão para se camuflar com a aparência de Argel... pelo menos é a única coisa que eu imagino”.

— Eu queria saber a personalidade dele, na realidade. — Respondeu Varis, refazendo sua pergunta e esperando a segunda resposta.

— Ah, isso... – Cérbero voltou a pensar e a acariciar seu pelo facial. — Ele é absurdamente chato, tipo, alguém que não para de ser irritante um único momento, insuportável, uma pessoa que você quer dar um soco na cara apenas por existir, entende o que eu quero falar?

— Você não tem ideia.  — Ironizou o ladino, já imaginando os futuros problemas que iria ter. – Não é tanta novidade...

— Tenho uma dúvida. — Voltten tomou a frente, conseguindo o foco de todos — Você poderia descrever a capital?

— Descrevê-la... bem... é uma cidade como qualquer outra por dentro, mas óbvio que ela é maior. Por fora ela é coberta por grandes e grossos muros brancos... se não me engano, tem trinta metros de altura. – O jeito de falar do caçador trouxe uma leve instigação de Voltten, que deixou claro em sua face o fascínio pelo local. – O castelo fica no centro, as áreas da cidade devem ter mudado desde a última vez que eu fui lá.

— Exatamente no centro? — Questionou Voltten, impressionado com os fatos apresentados.

— É, é, no exato centro. — Ressaltou Cérbero, se acomodando no trono real e continuando a descrever o local. — A cidade foi construída se baseando em um octógono, o arquiteto deve ter achado que era uma ideia legal fazer ele no exato centro, ou algo assim. Na verdade, deve ter um motivo... sei lá.

— Octógono? — Questionou Glans. – O que ser isso?

– Esse nem eu mesmo sei. – Complementou Edward, curioso com a palavra.

– Imagine um círculo redondo. – Vollten começou a explicar. – Agora imagine um quadrado, adicione uma quinta ponta a ele, depois uma sexta, depois uma sétima e por fim uma oitava. Um octógono é um círculo, mas com oito lados...

Varis encarou a face de seus companheiros confusos. O ladino sabia o que era um octógono, mesmo não conseguindo imaginar uma cidade assim, mas só o prazer da confusão alheia já valeu a pena.

– Ah... – Edward e Glans assentiram após o término da explicação do amigo, mas ambos não entenderam o que seria de fato um octógono.

– Quando vamos partir? – Perguntou Edward, após alguns segundos de reflexão.

— Pelo planejado, amanhã ao meio dia... — Respondeu o caçador enquanto coçava sua cabeça, desarrumando ainda mais seus cabelos.

— Amanhã? – Questionou o paladino, espantado. – Mas ainda tenho que explicar para Crist que ela irá se mudar.

— E....? – Cérbero não se importou nem um pouco, como sempre.

— Vai ser um enorme choque para ela se mudar em um momento tão repentino, no dia do ataque eu passei mais de três horas para acalmá-la. – Edward continuou. – Ela me viu desmaiar de camarote quando recebi uma estocada da lança, não podemos forçar tanto ela.

— Bem.... se você acordar no nascer do sol, terá umas seis horas para convencê-la, ou talvez a persuadir. – Disse Cérbero de forma irônica. – Ou talvez Parysas consiga fazer algo. Arruma um jeito aí.

— Não vou conseguir fazer isso em tão pouco tempo! – Afirmou Edward, receoso sobre o que sua filha iria passar.

Crist ficou desesperada quando Edward desmaiou no orfanato.

Se não fosse por Parysas afastando completamente o fogo e escombros no lugar, todos estariam mortos na pobre cabeça da criança inocente que mal sabia o que lhe rodeava.

Um suspiro e uma grande decepção vieram de Edward, que questionou para si se esse era realmente o homem que treinou Parysas e Sansa. Em sua mente, o mestre de seu mestre era um sábio sem tamanho, não um desleixado que não seguia as ordens por puro prazer.

— Certo... — Respondeu o paladino desanimado, saindo da sala deixando os quatro e se retirando para seu quarto.

– Acho que devemos ir junto. – Afirmou Voltten, se virando e acompanhando o paladino.

— Bem... nós também vamos. — Disse Varis com metade de seu corpo para fora da sala já. — Certo Glans?

— Vamos? – Questionou o draconato, imóvel no meio da sala.

— Vem logo! – Implicou o ladino, chamando o amigo para perto de si.

O mesmo obedeceu e se retirou da sala deixando Cérbero sozinho.

O silencio da noite foi quebrado com o iniciar de chuva seguida de fracas trovoadas.

— Sozinho... acho que eu tenho que me acostumar a isso de agora em diante. — Falou o caçador, após um breve suspiro.

Agora que era o único protetor do rei, não poderia sair de perto do mesmo.

Sem caçadas, sem perseguições, sem brigas de bar, sem brigas com demônios... era como se a única diversão do caçador fosse tirada.

– Boa sorte com eles, Ortros. – Cérbero falou consigo mesmo enquanto descansava. – Você tem os relatos meus e de Parysas, vai saber como cuidar dessas crianças, mas você nunca foi um bom professor, não me admire que você falhe tentando dar sermão.

Por Tisso | 21/05/20 às 19:23 | Ação, Aventura, Fantasia, Sobrenatural, Magia, Mitologia