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Capítulo 28 - O Palco da Luta e Uma Carruagem

Evalon: os Seis Lendários (E6L)

Capítulo 28 - O Palco da Luta e Uma Carruagem

Autor: Tisso | Revisão: Matheus Freitas (Leia SZPS)

As construções foram atravessadas rapidamente pelo ladino que percorreu estruturas com a maestria e destreza de um profissional na arte do parkour, ensinamentos esses que foi obrigado a aprender desde criança.

O alvo foi avistado ao longe. Um homem coberto por uma manta preta em cima da carruagem manchada de sangue, empunhando uma foice de forma casual.

Os cavalos da carruagem foram obrigados a avançar entre as pessoas e se moviam de uma forma incrivelmente rápida. Com frequência, os civis eram empurrados.

Varis dividia sua atenção entre os telhados que percorria e o alvo que acompanhava, esperando o momento certo para atacar. Momento esse que, foi concedido após muitos minutos da perseguição.

Um bisão carregando uma carroça cheia de feno se pôs no meio da estrada principal. Ela era tanto a primeira rota ao castelo tanto a rota que era percorrida pela carruagem no momento, assim parando o veículo sem opções de desvio.

A mão rápida do ladino foi impulsionada pelo seu cérebro, que não pensou duas vezes a possibilidade de ataque. Sua adaga afiada foi arremessada do topo das construções de madeira, atingindo em cheio o tórax do inimigo que foi surpreendido com o ataque.

Antes calmo, agora preocupado, o ser encapuzado colocou a mão direita na adaga em suas costas e a retirou. Ele sentiu o sangue escorrer do ferimento. Como sua magia estava fraca, não poderia se curar mais rápido ou bloquear o sangramento como havia feito antes, isso o preocupou.

Porém, uma outra coisa intrigava o homem, uma corrente que deixava a adaga suspensa. Seguindo o rastro de anéis de ferro, o ser encapuzado encontrou Varis, que o observava de cima dos telhados com um ar de superioridade.

Já percebendo que não haveria outra chance de fugir ou se esconder, Varis se jogou, caindo em cima do teto da carruagem que o aguenta, apesar de fazer um ranger estranho.

Por ser elfo o seu peso já era reduzido naturalmente, mas os anos de treinamento em seu antigo clã, fortaleceram suas pernas ao ponto de transformar esse salto de vários andares em uma simples queda.

 O ladino encarou o inimigo, enquanto se estabilizou, recolhendo rapidamente a adaga pelas correntes e empunhando sua espada com a mão esquerda.

Logo após ficar de guarda alta, Varis analisou o perfil do oponente.

— Bem... – indagou o homem. — Você seria?

— Me chame de Varis. — Disse o ladino, relaxando seus músculos perante seu oponente em um blefe receoso.

— Certo, Varis, por favor, desista de seu objetivo. — Pediu o homem calmamente, como se já fosse familiar do ladino.

— Como? –Varis questionou mantendo sua postura, não demonstrando reação alguma.

— Desista. Simples. Não quero ter que lutar ainda mais. – O tom do homem parecia mais descuidado que o normal, algo que o ladino encarava como um blefe ainda melhor que o seu.

— Então desista você. – Ele retrucou indiferente.

— Não, obrigado. Sabe, só estou aqui porque me foi ordenado. Meu senhor, me confiou uma simples missão. – Tomando ar de superioridade, o homem encapuzado expôs ainda mais a vanguarda para um ataque. – Logo eu, um dos maiores membros da Ceifa, confinado a caçar uma pessoa aleatória.

Aquele nome ecoou vagamente na cabeça de Varis. “Ceifa”, era como se já ouvira em algum lugar tal denominação.

Suas memórias consentradas piscaram vagamente, os roubos, assaltos, assassinatos, tudo que ele não se orgulhava tanto de cometer, vieram a sua mente, mas nada da origem do nome.

Foi então que ele lembrou do que não queria se lembrar nunca mais em sua existência: seu pai. Um breve comentário feito pelo ladino que o havia treinado veio à tona.

 “Uma foice sagrada, dizem ter pertencido a própria morte antes de Evalon. É isso que a Ceifa quer”. A voz deturpada de seu pai foi ouvida claramente, mesmo que ele estivesse morto.

Essa lembrança percorreu os neurônios de Varis que concluiu algo que poderia ser relevante ou não. Os humanos não lutam do lado de Lúcifer, mas sim do lado da Morte.

— Porque esse olhar frio?  – Perguntou o homem encapuzado, atrapalhando os pensamentos do ladino que não mudou sua expressão.

— Hum? – Questionou Varis, voltando para o mundo real e percebendo que o bisão já estava de saída.

— Tentando me colocar medo com um olhar de frio e impiedoso? Eu já matei vários como você, chuto que viu isso antes, certo?

— É, sim eu vi. — O bisão sairia em alguns segundos e Varis precisava fazer algo, algo para matá-lo.

Não demorou muito para que o inimigo percebesse as intenções do ladino.

Um ataque foi efetuado por parte do homem de capuz. O erguer da foice assustou o ladino, que deu dois passos para o lado e posicionou a espada para que entrasse em contato com o cabo de metal da arma de seu inimigo.

O cair da lâmina apenas cortou o ar, ela foi parada pela espada levemente arranhada de Varis, que se aproveitou da situação para deslizar o fio de sua espada para o final do bastão que constituía a foice, ataque esse, que lhe aproximou do inimigo.

Como reação, o homem puxou o bastão para perto de si, fazendo com que a lâmina arranhasse o braço de Varis.

Ao sentir sua armadura de couro ser cortada junto de sua pele, Varis resistiu a dor do contra-ataque. Ao compreender a situação, o ladino foi para frente, desfazendo o contato de sua pele e carne com o metal da foice.

Em seguida Varis se agachou, já deslizando sua mão direita para sua cintura. Com uma rápida evasiva, ele efetuou um rolamento para trás, jogando sua segunda adaga no meio do processo. A arma atingiu superficialmente o peito do inimigo.

— Ora seu... – Reclamou o homem, tirando a adaga e cortando parcialmente os dedos de sua mão esquerda ao pegar por engano na lâmina da arma.

Aos poucos, Varis sentia as dores de seu braço que havia sido arranhado, o sangue escorria e desaparecia ao entrar em contato com seu manto negro, mas a dor permanecia fortemente ativa.

Os dois já estavam em condições ruins, o homem já não empunhava a sua foice com as duas mãos com tanta perfeição devido aos ferimentos malcuidados pela falta de magia, a segurando de forma instável apenas com a direita, mão essa que ainda não havia sido atacada.

Já Varis, rasgou parte de seu manto e o enrolou por cima do ferimento, realizando o nó com os dentes como uma forma de primeiros socorros improvisada de se dar inveja.

O caminho até o castelo se encurtava e o tempo do ladino se tornava escasso.

As lâminas das duas armas imploravam pelo arrancar da alma de seus devidos adversários. O olhar de Varis também não era mais o mesmo, o ladino abandonou as pupilas focadas e o encarou friamente, possuindo agora uma calmaria peculiar e sem nexo, algo parecido com o de Cérbero, porém mais humano e menos psicopata.

Já planejando o próximo movimento, Varis fingiu cambalear de dor para distrair o oponente.

Suas adagas estavam em lugares distintos, uma estava na bainha, suja na ponta devido ao ferimento causado nas costas do inimigo. Já a outra, se entrelaçava entre os pés do homem encapuzado, que parecia não se importar com as correntes que pisava.

O ladino já previu completamente o caminho que deveria seguir, só precisava colocar seu plano em prática. Com toda sua energia e com o máximo de pensamentos positivos, Varis aguentou a dor de usar seu braço ferido para puxar as correntes para si, ato que visualmente se assemelhou ao recolher brusco de um chicote.

O inimigo assustado pensou em revidar, mas rapidamente percebeu seus pés presos pela serpente de ferro que o circularam completamente. O ladino sorriu, rindo da cara de seu oponente que estava pasmo perante aquele ataque.

Após o tropeço de seu adversário, Varis arremessou sua espada em direção a cabeça do homem, que usou de sua foice como bengala, apoiando o cabo no teto da carruagem e permanecendo de joelhos em cima do veículo.

O bastão também havia bloqueado a espada que apenas atingira um de seus dedos, deixando exposto o branco de seu osso anelar.

Porém, essa não era a última carta nas mangas sagazes e preparadas do ladino. O arremessar da espada com foco na região da cabeça não havia sido para acertá-la diretamente, foi apenas para tapar sua visão momentaneamente.

Como verdadeiro golpe final, Varis sacou sua segunda adaga de sua bainha e a arremessou.

O objeto cortante perfurou o ar, passando do lado do cabo de ferro da foice, do dedo com o osso exposto e atingindo em cheio o rosto de seu inimigo.

— Bastardo! – Gritou o homem em um gigantesco urro de dor.

Da corrente que acompanhava a adaga, começou a correr um fio de sangue negro, se manifestara aos montes com aquele ataque.

Todos que estavam ao redor já estavam horrorizados com a briga em pleno teto do veículo, mas não interviram por medo de se ferirem no processo. Devido ao posicionamento dos guardas concentrados nas bordas do octógono, nenhum veio ajudar.

 Varis se sentia vitorioso e exausto no momento, enquanto a dor lhe consumia, mas a certeza de sobrevivência era bizarramente notoria.

O sangue coberto pelo seu manto corria cada vez mais e mais, junto disso uma presença mágica foi sentida de repente pelo ladino que sentiu uma fisgada no coração. Logo Varis caiu para o lado, permanecendo no teto da carruagem.

Porém, seu adversário teve outro destino.

O homem encapuzado caiu ferido, suas energias estavam acabando, o mesmo mal conseguia respirar normalmente.

Tirando a adaga de seu olho com extrema dor e sentindo a bizarra sensação que era perder parte da visão, ele desviou o olhar para o lado e se viu no início dos degraus da grande escadaria do castelo de Cartan.

Seu levantar foi marcado pelo abrir de porta da carruagem que rangeu e o deixou frente-a-frente com o homem que estava dentro dela.

Um jovem de longos cabelos brancos, cavanhaque de cor acizentada e roupas nobres e requintadas com panos roxos as cobrindo parcialmente.

Com dificuldade, a figura encapuzada se levantou, limpando com a manga de sua manta o sangue que escorria de seu ferimento.

— Mes... – falou o homem, que teve seus dizeres interrompidos pela mão do jovem, que envolve sua face rapidamente.

Com desprezo no olhar e um claro tom de ódio na voz, o jovem apenas emanou um pouco de energia de suas mãos

Morietur. – Murmurou o jovem em uma invocação que lhe parecia casual.

Uma esfera de energia vermelha saiu da mão do jovem que viu com detalhes, o destruir do capuz preto que cobria o inimigo.

Após isso, sua cabeça estava exposta e as deformidades podiam ser vistas, pequenos protótipos de chifres estavam se formando entre os cabelos do homem, mas isso de pouco importava.

Em seguida, seus cabelos, aos poucos, se extinguiam, sua pele se deteriorava e a mesma coisa acontecia com sua carne.

Sem poder falar, o homem sentia tudo aquilo a lhe consumir como uma dor fulminante. Todo o alterar em sua pele, todos os efeitos da magia. Todas as sensações ruins que ele poderia sentir.

O fim da tortura só chegou ao expor do esqueleto do crânio do homem, que caiu morto no chão.

O sangue escorria de seu pescoço, que parecia ter sido cortado, porém ainda possuía seu crânio. O líquido vermelho escuro desceu a calçada, se misturando com a poeira da rua, correndo até o bueiro de esgoto.

O jovem olhou ao seu redor e viu Varis fechando seus olhos lentamente, desmaiando no teto de sua carruagem com um sorriso de vitória no rosto que logo se esvai com o cansaço.

Sorrindo junto do ladino, o jovem se viu satisfeito com aquilo.

– Então você é o Priscar? – Ele disse ao pegar a adaga que estava perto do homem e a colocou próximo a Varis. – Prazer em vê-lo pessoalmente, Edgar Dol. Varis.

 

 

Por Tisso | 23/06/20 às 16:17 | Ação, Aventura, Fantasia, Sobrenatural, Magia, Mitologia