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Capítulo 29 - A Adolescência de um Sábio

Evalon: os Seis Lendários (E6L)

Capítulo 29 - A Adolescência de um Sábio

Autor: Tisso | Revisão: Matheus Freitas (Leia SZPS)

O ladino se encontrou na dimensão preta novamente, os dentes do demônio que ele havia visto anteriormente, quando desmaiou em Kranbar, estavam bem a sua frente.

Um baforar pesado e quente foi emanado entre as enormes presas do ser de aparência esguia, que falava calmamente com a voz horrenda de sua espécie.

— Coma! Nós precisamos comer! Coma tudo que é possível! Alma, carne, sangue!

O ladino tentou reagir, mas não conseguiu mover sequer um músculo, perante aquela criatura demoníaca.

Seus olhos também permaneceram paralisados, focando totalmente na língua do demônio que lambia a lateral superior de seu rosto, sentindo as patas da lacraia a lhe pinicar e a descer até a seus lábios.

O ladino tremeu inconscientemente enquanto o demônio passava a língua em sua boca. De repente, o penetrar para dentro da garganta de Varis foi executado, o ladino sentiu sua úvula remexer e suas entranhas a borbulhar.

A ânsia de vômito misturada com o medo grotesco o dominou.

Seus braços e pernas lhe apertaram como se fosse uma tortura feita com correntes. Seu estômago foi revirado enquanto seus membros inchavam e perdiam a circulação de sangue.

Os olhos do ladino começaram a se mexer contra a sua vontade, olhando para cima, passando vagamente pela face horrenda do demônio que sorrira de forma amedrontadora, algo quase semelhante ao sorriso de Cérbero, mas com o aspecto bestial demoníaco.

O movimento ocular só teve seu fim quando os olhos reviraram, que olhavam para dentro de seu crânio, onde estranhamente pudera ver seu interior vermelho de carne pulsante.

Porém, de repente, o vermelho de sua carne se transformou em um emaranhado de carne podre negra, que aos poucos lhe consumia e o fazia perder a visão.

Com um susto repentino, Varis se levantou da cama em que estava deitado, algo semelhante ao acontecido em Kranbar, mas dessa vez os paladinos não lhe apararam.

Olhando ao seu redor, ele viu uma cortina o separando de outras camas – deu ainda para ver vagamente a silhueta de outros passando junto de outros soldados deitados.

Ao direcionar sua atenção para seu lado esquerdo, percebeu a mulher que estava sentada em seu lado, lendo um simplório livro. Rapidamente, a moça deixou seu livro cair e armou um abraço que envolveu o pescoço do ladino, que reconheceu a dama.

— Olá, Sagita. — Saudou Varis a abraçando de volta, sentindo uma leve dor em seu braço que havia sido perfurado e uma vaga lembrança de seus membros apertando.

— Nunca mais me assuste assim. — Reclamou a elfa negra, em uma leve quebra dos padrões de sua personalidade.

Os dois continuaram a se abraçar por alguns segundos, mas logo em seguida voltaram ao normal.

— Então, como foi a defesa da muralha traseira da capital? – Perguntou Varis, movendo seu braço machucado, vendo o quanto de manejo ainda tinha com ele.

— Nada demais. — Respondeu Sagita, pegando seu livro caído e o pondo sobre seu colo. — Para falar a verdade, nenhum humano apareceu.

— Nenhum?

— Sim, nenhum. Apenas alguns demônios maiores conseguiram danificar os murros, mas nada que a barreira não cuidasse para nós.

— Estranho, normalmente os que atacam sempre mandam alguém para flanquear.

— É, eu também achei estranho, mas não é tudo.

— Como?

— O único humano que atacou a capital foi o que lhe feriu.

— Eles usaram apenas um!? – Gritou Varis, intrigado.

– Cala a boca, Varis! – As vozes de Edward e Aquiles soaram simultaneamente após o grito do ladino.

Varis olhou ao redor confuso, logo em seguida voltou para Sagita.

– O que rolou? – Varis questionou de imediato as vozes de seus companheiros, que também estavam naquele lugar. – Eles tão aqui?

– Aquiles ficou com um grande ferimento no peito e Edward usou tudo de si em uma magia de cura para cicatrizar. – Sagita respondeu olhando ao seu redor.

– Na verdade todos estamos aqui. – Voltten atravessou os panos de privacidade dos dois sem aviso prévio.

De todos lá, o mago parecia ser o que mais saiu inteiro. Suas vestes verdes estavam vagamente sujas, mas o corpo estava em seus cem por cento.

– Oi, Voltten. – Saudou Varis rapidamente. – Pelo visto, todo mundo se feriu de alguma forma.

– Um corte profundo com perda de meio litro de sangue. Uma enxaqueca imensa com perda de um litro de sangue. Um corte surreal no peito com uma perda de quase três litros de sangue. Uma série de ferimentos internos com hemorragia... – Listou o mago olhando para o amigo enquanto contava nos dedos. – ...incrivelmente, um corte na panturrilha foi o menos sério de todos os casos.

– Bem... – Sagita ergueu a manga direita de sua roupa e mostrou uma série de faixas manchadas. – ...adicione mais uns cortes nos braços, mas foram superficiais.

– Certo. – O mago afirmou para os companheiros. – Acho melhor voltar a privacidade. – Complementou Voltten deixando-os a sós novamente.

— Enfim... — O ladino voltou ao assunto original. — Quer dizer que eles usaram apenas um humano?

— Sim.

— Isso é mais intrigante ainda. O que aconteceu com os demônios?

— Parece que fugiram após a morte do invasor, como se fossem lobos de carniça, abandonaram a batalha após perderem seu líder.

— Estranho, muito estranho.

— Concordo, mas não é motivo para nos preocuparmos no momento. Todos estão bem, apesar de tudo. Voltten enfaixou seu braço.

Varis olhou para o ferimento e percebeu duas coisas peculiares.

A primeira foi as faixas brancas o rodeando, algumas poucas manchas de sangue ainda podiam ser vistas.

A outra peculiaridade era a ausência de suas vestimentas superiores, tanto sua armadura de couro, quanto sua roupa comum, não estavam mais em seu corpo.

— O que aconteceu com minhas roupas? – Questionou Varis, levemente assustado.

— As tiramos para fazer o remendo na pele e enfaixá-lo. — Respondeu Sagita, pegando uma bolsa de couro que estava atrás de sua cadeira. — Aqui, pega.

Varis pegou a bolsa, a abrindo, viu sua armadura completamente limpa, sem nenhuma mancha ou cheiro de sangue, muito menos o fedor de suor.

— Levaram ela para um paraíso e a trouxeram de volta? – Ironizou Varis colocando a armadura com poucas dores no braço.

— Obrigado pelo elogio. — Respondeu Sagita, esboçando um pequeno sorriso no canto de sua boca. — Eu apenas a lavei e remendei os rasgos enquanto você dormia ontem.

— Legal... – O ladino se questionou momentaneamente. – Ontem?

— A propósito, tinha um furo um pouco maior que o convencional nas costas da armadura. – Sagita afirmou ignorando a pergunta feita.

— Não deve ser nada demais. — Afirmou Varis se levantando da cama, colocando os dois pés no chão e andando levemente tonto. — E pensar que você sabe costurar, acho que escolhi uma boa pessoa para me casar.

— E-Eu nunca disse que iria casar com você. — Resmungou Sagita, escondendo suas bochechas rosadas.

— Então vou perguntar de uma forma melhor... — Varis se ajoelhou de forma meio falha na frente da elfo negro albina, pegando delicadamente suas mãos e a encarando nos olhos. — Você quer casar comigo?

— Eu... Eu...

– Eu lamento atrapalhar sua ceninha de romance, mas vocês realmente precisam fazer tanto barulho? – Aquiles reclamou, ainda tonto pela perda de sangue tremenda.

– Eu estava a apreciando. – Respondeu James, em um tom bem-humorado.

– O mesmo. – Confirmou Edward, com vagas risadas roucas.

– Acho melhor vocês irem lá para fora. – Voltten pediu, invadindo novamente o lugar de descanso dos dois. – Eu tenho uma coisa a ver com Varis também.

– Comigo? – O ladino questionou se levantando e seguindo Sagita.

Após saírem da sala médica, os três se depararam com um dos inúmeros corredores de pedra do castelo.

Sagita deu as costas e deixou os elfos a sós.

Varis lamentou a falta de sua digníssima cônjuge, mas logo direcionou o foco em Voltten que o conduziu para um lugar mais privado.

Após longas caminhadas por corredores distintos os dois elfos chegaram na biblioteca do castelo.

O lugar era enorme. As prateleiras formavam corredores internos, as mesas de madeira eram resistentes e recheadas de papéis e livros, escadas móveis a cada prateleira, um globo talhado decorava do local. Afastado de todos um segundo andar com ainda mais livros e gigantescos mapas, pergaminhos e tapeçarias.

Varis seguiu Voltten, que o guiou a uma pequena varanda no segundo andar. Os dois se sentaram e, de um criado mudo aleatório que existia no local, Voltten tirou uma caixa de biscoitos amanteigados requintados.

O ladino não recusou os agrados do amigo. Com fome, ele pegou os biscoitos aos montes enquanto Voltten o observou envergonhado e receoso. Após saciar sua gula, o ladino voltou sua atenção ao amigo que o trouxe ali sem motivo aparente.

– Bem, Voltten. – Indagou Varis calmamente. – Você me trouxe aqui com quais finalidades?

– Hum? – O mago murmurou sem confianças para responder.

– Não me venha com “hum? ”. – O ladino se espreguiçou para trás, enquanto encarava o amigo de forma fria, mas estranhamente calorosa. – Vamos, pode falar.

– Bem... – O elfo ficou receoso, ele mordeu o próprio lábio e respirou forte antes de falar qualquer coisa. – A Sagita é legal, não é?

– Sim... – O ladino estranhou a indagação. – ...ela é.

– Então...

– Hum...

Assim como uma conversa que não levava a lugar algum, os dois ficaram se encarando sem fazer qualquer coisa.

– Voltten, se não for falar nada eu vou embora daqui. – Ameaçou Varis, deixando claro que a monotonia do lugar o incomodava.

– Espera! – Ele interrompeu a ação do ladino, antes mesmo dela ocorrer. – Eu preciso da sua ajuda.

– Para? – Varis se arrumou no assento, pega mais um biscoito e se pôs a ouvir Voltten.

– Sansa. – Voltten respondeu cabisbaixo.

– Que?

– Sabe, quando... copulação...

– Voltten, você tem que me ajudar a te ajudar. – Varis afirmou pensativo. – Primeiro fala seu problema, depois fala ele sem usar palavras difíceis.

– Mulheres, é isso que eu preciso de ajuda. – Voltten afirmou cabisbaixo, direcionando o olhar para baixo em sinal de vergonha.

– É isso? Sério? – Varis questionou, vagamente confuso.

– Os elfos atingem a idade adulta quando chegam em seus quarenta anos, eu só tenho vinte e nove, sou praticamente um adolescente que não sabe como lidar com isso.

– Que? – Os dizeres do amigo confundem extremamente a cabeça do amigo. – Eu tenho trinta e dois e me considero um adulto. – Talvez algo questionável.

– Você, Edward e Aquiles foram criado no meio de humanos. – Voltten comentou ainda mais cabisbaixo. – As suas sociedades lhes moldaram para serem adultos mais cedo.

– Ok... – Varis lembrou da “incrível” sociedade que cresceu. – Você é um adolescente então... isso é estranho e complicado de engolir.

– Eu fui criado num monastério de raças híbridas, quis sair para explorar o mundo, eu viajei por dois meses, eu perdi completamente meu dinheiro, quando encontrei a vila em Kranbar eu só quis tentar ser um artista de rua com meus feitiços... – Varis já previu o final da história ao lembrar dele na prisão local.

– Certo, certo, vamos por partes. – Disse o ladino calmamente. – Já até imagino onde Sansa entra nisso, mas não esperava que você tivesse esse lado envergonhado.

– Você não esperava? – Voltten retrucou. – Eu não esperava que eu tivesse isso. Eu passei a minha vida em bibliotecas lendo sozinho. No início ler com ela foi normal, mas agora eu não consigo manter a calma sem desviar meus pensamentos...

Voltten quase ficou em posição fetal na cadeira que estava. O mesmo começou a respirar forte e de forma desregulada.

– Você está exagerando um pouco... – Varis falou aproximando a mão do ombro do amigo.

Rapidamente Voltten direcionou sua visão apavorada na direção do ladino que parou com cuidado.

– Nossa, certo... – Varis se afastou vagamente de Voltten. – Vamos tentar aos poucos?

– Hum? – Voltten mudou a face apavorada para uma que exalava esperança, tudo direcionado a Varis. – Você vai me ajudar?

– Ajudar? É mais passar o que você vai ter que fazer. – Varis afirmou pensativo e confuso.

– Já é algo. – Voltten pegou a mão direita do amigo e o cumprimenta. – Obrigado.

– Não precisa agradecer. – Varis recolheu rapidamente a mão estranhando a ação do amigo.

– O que eu devo fazer? – Perguntou voltem calmamente.

– Primeiramente você tem que se controlar e não pegar a mão das pessoas do nada. – Varis ironizou, enquanto recolheu a mão. – Tente conversar com ela, busque seus gostos em comum, se aproxime aos poucos, o de sempre eu acho.

– Tipo o que eu vejo em romances?

– Eu não sei o que tem em romances, mas pega o que ter de positivo e faz isso com o mínimo de bom senso. Eu não sou o melhor pra falar disso.

– O que você fez com que a Sagita gostasse de você?

– Hum? – O ladino se inquietou por um momento. – Isso é outra história.

A porta da biblioteca se abriu, dando aos dois elfos a imagem de Sansa que estava a vagar pelo local.

– Vai que é sua. – Varis afirmou dando tapas nas costas de Voltten e correndo para a porta de saída sem nem mesmo trocar olhares com a maga.

– Hum? – A maga desviou o foco do ladino para Voltten rapidamente. – Ei Voltten, eu acho que me recuperei totalmente do feitiço.

– Ótimo... – O elfo afirmou se levantando com um sorriso sem graça.

– Vamos tentar mais do que aqueles livros de lógica diziam?

– Claro... – Voltten engoliu rapidamente a saliva. 

“Gostos em comum, fazer os poucos, não pegar nas mãos” Ele repetiu para si mesmo em pensamentos rápidos. 

 

 

Por Tisso | 25/06/20 às 13:21 | Ação, Aventura, Fantasia, Sobrenatural, Magia, Mitologia