CAPÍTULOS
OPÇÕES
Cor de Fundo
CONTROLE DE FONTE
HOME INDEX
Capítulo 58 - Uma Cidade Fantasma Ainda tem suas Regras

Evalon: os Seis Lendários (E6L)

Capítulo 58 - Uma Cidade Fantasma Ainda tem suas Regras

Autor: Tisso | Revisão: Matheus Freitas (Leia SZPS)

Edward, Varis e Aquiles não estavam em seus sacos de dormir.

Suas armas, vestes e armaduras estavam dentro dos sacos enquanto suas mochilas serviam como travesseiro.

– Eles foram raptados? – Questionou Voltten, observando a entrada da pousada extremamente tenso.

– Eu não sei explicar. – Averiguou James, investigando a cena do crime. – O óbvio fala que sim, mas não aparenta ser algo normal.

– Hum?

– Edward usa três camadas de roupa: a armadura, uma cota de malha interna e uma veste simples. A armadura permanece rígida independentemente de estar sendo vestida ou não, mas as outras duas caem como tecido quando não usados.

– E onde isso chega?

– Além de não fazer sentido eles deixarem as roupas de cada um, haveria uma dificuldade enorme em deixar as duas roupas dentro da armadura tão perfeitas como estão. – James se virou para as vestes de Varis. – É como se eles tivessem evaporado na noite passada. As vestes de Varis são de couro e Aquiles não usa nada além do peitoral com abertura para os braços e uma calça.

– Alguma teoria do que aconteceu então? – Voltten perguntou, começando a ter pequenos ataques nervosos. – Eles podem ter retirado a roupa e depois colocaram de volta, não? Matheus Freitas: Isso mesmo Voltten, você é o gênio da raça...

– Não imagino alguém fazendo isso de forma silenciosa, principalmente com a gente no quarto ao lado. – O arqueiro levantou e deu uma última olhada no quarto. – Fora que o barulho de metais das correntes de Varis e da armadura de Edward denunciariam completamente o sequestrador, isso sem contar o fato de um deles acordar.

– Droga... – Murmurou Voltten, enquanto mexia seu cabelo para se acalmar.

– Eu vou ver com a dona da pousada, mas dependendo desse lugar, eu não duvido que eles tenham sido puxados por algum tipo de magia.

– As energias não estão diferentes das de ontem, mais fracas, mas concordo com você, uma magia poderia facilmente tirá-los daqui. – Voltten afirmou, olhando rapidamente as vestes dos amigos. – Mas me pergunto o motivo de ter sido exatamente eles.

– O mesmo. – James respondeu, parando seu andar para a recepção da pousada.

– Se eles buscavam os mais fortes, deveriam ter levado Glans ao invés de Edward, se buscavam os mais fáceis, deviam ter pegado a mim do que Edward, se buscavam os que mais seriam enfraquecidos pelas forças magicas, nós dois deveríamos estar no lugar de Varis e Aquiles. – Tremendo e mordendo os cabelos, o mago recitou sua frase de forma caquética, com respiração pesada e tudo que a situação poderia proferir.

A inutilidade de um fantasma que residia em uma pousada fantasma era grande. No fim, eles voltaram à estaca zero.

Frente ao quarto com os equipamentos, James seguiu até a mochila de Edward e tirou os cantis de água benta e o recipiente de sal santo.

– Tem algum plano? – Voltten questionou com medo da situação, mas teve seu corpo acalmado com uma das gigantescas mãos de Glans em seu ombro como forma de amizade, mesmo com a cara draconiana do companheiro.

– Plano é uma palavra forte. – James respondeu, abrindo os cantis e despejando nas vestes e mochilas dos companheiros, seguido de salpicadas adicionais. – Eu chamo isso de “não ter o que fazer, mas fazendo algo mesmo assim”.

– E depois você chama Varis de idiota. – Comentou com uma risada tremula.

– Sabe Voltten, existem duas contradições da carta do tolo. – James se aproximou da porta, fazendo uma linha na entrada para espíritos não entrarem. – A primeira é que ela pode ser colocada como carta vinte e um, assim como a carta do mundo, a numero vinte um, pode ser colocada como número vinte e dois no caso.

 James guardou os materiais na mochila de Edward, finalizando seu “plano” de proteção.

– A segunda contradição é que ela pode ser interpretada com uma ou duas letras “O”.

– Como? – Os dois companheiros do arqueiro questionaram.

– Existem versões que ela possui apenas um “o”, podendo ser chamada de “The Fol” – O Louco – ou de “The Fool” – O Idiota.

– Duas versões da mesma carta? – Voltten questionou, enquanto ele e Glans davam passagem para o arqueiro tomar o rumo que os conduzia.

– Eu não diria versões e sim interpretações, como se ela precisasse de mais. – James afirmou, colocando moedas no balcão de atendentes da pousada. – Quais as diferenças de um idiota para um louco? Vocês saberiam responder?

Saindo da pousada e se deparando com a cidade élfica fantasma em movimento, os três continuaram a vagar por aquele lugar.

James anotou onde ficavam os equipamentos de seus amigos e logo que encontrasse, eles iriam buscá-los.

– Um louco e um idiota? – Glans perguntou enquanto seguia o arqueiro e o mago.

– Loucos e Idiotas não estão em mesma sintonia? – Voltten perguntou.

A magia do local estava lhe afetando, mas o medo que sentia de perder seus companheiros ou até mesmo de ser o próximo a ser perdido não o deixava pensar.

Ele andava contorcido e preparando um ataque com o cajado em sua mente – mesmo que sua especialidade não fosse em combate, seus conhecimentos eram suficientes para exercer a invocação de uma pequena esfera de fogo.

– A sintonia mental de um idiota não chega nem perto de um louco. – James afirmou de forma suave, guiando o grupo para onde ele achava ser o lugar certo. – Um idiota está fadado a burrice em um plano geral, já um louco está fadado a burrice em planos inferiores ou em sociedades menos desenvolvidas.

– Hum? – Glans questionou, enquanto Voltten olhava ao seu redor.

– Desde a evolução até os descobrimentos do mundo, as mentes sãs não estavam prontas para encarar a real informação. – James começou a recitar como se fosse um poema clássico. – Os loucos se arriscam pela verdade, eles que questionam a sua existência e ao propósito de tudo, como o mundo flui e como eles podem o manipular.

O silêncio não só entre os três, mas também em toda cidade culminou em uma pausa dramática proposital pelo arqueiro.

– Em outras palavras, “ironicamente, os loucos são os verdadeiros gênios desse mundo”.

– As cartas que pegamos... – Voltten começou a falar. – Elas têm influenciado quem foi capturado?

– Não sei. – Afirmou o arqueiro pensativamente. – Por mais que aquilo pareça apenas um truque de Varis, eu já havia feito o mesmo em outro lugar.

– Hum? – Questionou Voltten rapidamente.

– O baralho de Tarot é uma cultura tão antiga quanto o próprio Evalon, não se tem informação alguma do seu ou seus criadores. Inúmeros deuses usavam as Arcanas Maiores e Menores, muitas vezes para o auxílio de evolução ou para catalogar seus soldados.

As explicações de James traziam a Glans e Voltten inúmeras imagens históricas que os dois viram com seus próprios olhos. Algo conturbado, talvez ilusão do medo, mas algo completamente suportável.

Para Voltten eram inúmeras pinturas, citações e até mesmo frases encantadas em inúmeros livros que o mesmo lera em toda sua vida.

Para Glans, as primeiras coisas que o mesmo lembrava era as palavras do ancião de sua tribo, das inúmeros lendas e contos passados de geração em geração, pinturas talhadas em pedra e vultos simbólicos feitos nas labaredas de fogueiras.

– Quando comprei o meu baralho, o vendedor fez o mesmo truque que Varis realizou na carroça, ele refez o baralho após tirar a carta, mas o resultado foi o mesmo, ele me entregou assim a carta de número nove, O Eremita ou O Ermitão, ou até mesmo A Prudência.

– Prudência? – Questionou Glans.

– Eu fiquei de anotar só os dois primeiros, mas o terceiro sempre vem a mente.

– Então existe a chance de que o truque de Varis possa ter sido verdade? – Voltten questionou.

– Na hora, eu fiquei achando que o mesmo estava manipulando as cartas, não desconfio que ele possa fazer isso, mas eu chuto que as chances daquele truque ser verdade é maior do que ele ser uma mentira de certo modo.

– Então Glans ser A Carruagem? – Glans questionou um pouco confuso.

– Existem variações do nome como “Carroça” ou “Carro de Guerra”, mas sim Glans, você é A Carruagem. – James afirmou rapidamente, voltando a conduzir o grupo pelas ruas após essa breve pausa.

– O que ser um Carro?

A frente do trio, uma carroça parou, quase que ordenando para que eles saiam da rua.

James pouco ligou e continuou seguindo em frente, atravessando o veículo fantasma sem pestanejar.

Os amigos ficaram receosos, mas logo seguiram o arqueiro que esbanjava confiança ao andar por aquelas avenidas de espíritos.

– Aliás, James, onde estamos indo? – Voltten questionou após ter chegado a um metro das costas do amigo.

– Nem mesmo eu sei. – O arqueiro afirmou confiantemente, apesar da resposta descuidada. – Foquei o meu dia de ontem para estudar esses espíritos, ou pelo menos ter alguma ideia do que fazer.

– Chegou a algum resultado? – Questionou, se aproximando mais de James, cada vez com as mãos mais tremulas.

 – Voltten, se você ficar trêmulo e perder o controle, não irá ajudar em nada. – James afirmou, se virando para o mago e agarrando seu cajado para deixá-lo estável.

Ao encostar no condutor mágico, James sentiu seus órgãos sendo contraídos de uma única vez.

Como uma corrente amarrando sua carne, uma sensação maldita lhe penetrou o peito.

A sensação de proximidade a demônios que o arqueiro possuía se manifestou, mas não em um local próximo. O demônio estava lá, em seu semblante, penetrando aos poucos sua carne de maneira invisível.

O arqueiro não só soltou o cajado como o empurrou de relance, com falta de raciocínio.

Voltten apenas não caiu por conta do corpo de Glans, que o absorveu com seus braços grandes e amistosos.

Já James, caiu por conta própria.

O arqueiro tentou se manter em pé, mas logo tropeçou e caiu de joelhos olhando para a rua.

Ele tentou se controlar, mas aquele sentimento lhe causou uma extrema retração interna.

Não demorou muito para que James acabasse vomitando um emaranhado de líquidos e comidas não digeridas. Porém, nenhuma mancha de sangue foi vista.

– James! – Voltten gritou, se aproximando do arqueiro.

– Eu estou bem, eu estou bem. – James afirmou, se recompondo e se levantando. – Foi só... uma reação natural.

– Hum? – Glans e Voltten se questionaram, enquanto o arqueiro ajustava sua postura.

– Eu não tive sincronização com o item mágico e a energia do lugar somou a isso. – O arqueiro afirmou, ainda meio inquieto.

– É uma teoria. – Pensou Voltten em voz alta.

– Enfim, Voltten, você tem que tentar se um pouco mais confiante.

– Ei! – Uma voz atrás de James chamou a atenção do trio. – Saiam do caminho.

– A parte boa de andar na área de carroças, é que o peso do Glans não faz ele cair, a parte ruim é ter que lidar com “inconveniências”, a parte boa é que resolvemos as coisas rapidamente. – James afirmou, conduzindo novamente o grupo por dentro da carroça fantasma.

– Você disse que passou o dia estudando esses espíritos, o que aprendeu? – Voltten questionou, ainda receoso.

– Foi fácil me misturar enquanto quatro pessoas seguiam um caminho único e você os acompanhava. – James comentou de forma irônica. – Alguns deles percebem que nós existimos de longe, mas a maioria só nos vê se estivermos a uns cinco metros.

Glans e Voltten se puseram a ouvir com clareza o que James estava falando, até mesmo o mago parou momentaneamente de tremer para prestar mais atenção.

– Assim como Varis descobriu, só conseguimos interagir com eles por meio de uma permissão direta. Coisas como “eles” ou “esse bando” não consta como permissão para que eles possam interagir.

Uma pausa rápida foi feita pelo arqueiro, que visualizou a rua que queria atravessar.

– Glans, tenta pular aqui. – Orientou o arqueiro, já andando para o local que pretendia ir.

Voltten caminhou lentamente junto de James, enquanto o draconato pegou impulso e os alcançou, quebrando onde tinha pulado e quase quebrando o local de aterrisagem.

– Ótimo, todos inteiros. – James ironizou.

– O que mais você descobriu? – Voltten questionou de imediato com uma faceta de medo em seu ser.

– Quando o Varis impôs que o cara “não podia ficar no nosso caminho”, ele acionou um “gatilho da vida” dele. Reparei isso e tentei reproduzir a mesma frase com outros fantasmas, mas não deu certo.

O ambiente ao redor dos três ficou cada vez mais movimentado, com fantasmas de elfos exercendo das mais inúmeras tarefas, um local movimentado como uma capital.

Tentando usar outros métodos com as cobaias, descobri que podemos acionar uma situação de quando ela estava viva para eliminá-la. No caso de Varis, ele falou que um motorista não podia ficar no caminho dele, isso ocorreu pelas lembranças de vida dele.

– Então é só dizer para um vendedor que ele não pode vender mais nada que ele morre? – Voltten questionou intrigado, enquanto olhava constantemente os arredores.

– Exato, mas para quem não sabemos nada, isso não adianta. – James acrescentou, olhando ao arredor e escolhendo um rumo. – Para fantasmas, podemos impor até três limitações. Não podemos colocar coisas muito vagas como “você não pode falar palavras com ‘A’” nem coisas muito especificas como “você não pode existir”.

– Então se uma das limitações ativarem o gatilho de vida do fantasma, ele morre? – Glans questionou, deduzindo as afirmações do amigo.

– Exatamente, isso vai ser um trunfo pra pesquisas futuras... – James afirmou, olhando para onde havia chegado. – Chegamos.

– Hum? – Os dois amigos questionam a afirmação e logo olharam para onde o arqueiro se referia.

A grande árvore central, na exata entrada, frente a ponte de pedra do local.

Por Tisso | 06/10/20 às 18:15 | Ação, Aventura, Fantasia, Sobrenatural, Magia, Mitologia