CAPÍTULOS
OPÇÕES
Cor de Fundo
CONTROLE DE FONTE
HOME INDEX
Capítulo 59 - Um Culto de Vestes Brancas

Evalon: os Seis Lendários (E6L)

Capítulo 59 - Um Culto de Vestes Brancas

Autor: Tisso | Revisão: Matheus Freitas (Leia SZPS)

Uma ponte tão rústica e firme quanto os muros de Cartan.

Supostamente era feita de pedra sólida e forte, essa era a mais intacta de todas as ruas da cidade e a única que não passava sequer uma das almas que por lá vagavam.

O trio seguiu despreocupado, afinal as “normas” descobertas por James os protegiam.

Mesmo com o mago trêmulo e assustado, o conforto da confiança do arqueiro e da força física do draconato fazia seu corpo os seguir.

À medida que se aproximavam da grande árvore, seus detalhes minuciosos eram percebidos.

Diversas marcas de runas élficas a rodeavam, todas feitas com uma lâmina precisa e provavelmente muito antiga.

Em meio a névoa vaga, a entrada do local se revelava com o tempo.

– Uma árvore oca? – Voltten questionou, ao conseguir ver completamente o caminho, sempre atrás das costas de James.

– Pelo visto, o castelo de Monssolus não foi a primeira estrutura oca da região. – James ironizou, seguindo o caminho.

À medida que o arqueiro se aproximava, ele reconheceu, jogados próximo à porta, esqueletos de guardas com armaduras douradas e leves, tais como as armaduras élficas antigas que ele tanto ouviu falar.

– Hum? – Glans foi o primeiro a questionar, enquanto todos pararam para averiguar.

– Voltten, me dê cobertura. – Disse James, caminhando sutilmente para o corpo mais próximo e o carregando para perto de si.

Após trazer o corpo para próximo de seu grupo, o arqueiro e o elfo começaram a investigação do corpo.

– É como se sua carne tivesse se deteriorado enquanto seus ossos permaneceram inteiros. – Afirmou James levemente receoso com aquilo. – Já viu algo assim, Voltten?

– Qual a resposta que você quer ouvir? – O mago gaguejou e perdeu o fôlego.

– A verdadeira.

– Isso pode ser obra de necromancia de alto nível, pelo menos é o que aparenta.

A mente do arqueiro acionou um gatilho perante aquela palavra.

“Necro”, palavra em que significa morte ou corpo morto.

“Mancia”, palavra que indica o domínio de alguma área, normalmente relacionadas a magia.

Um necromante, um ser considerado um manipulador da própria vida após a morte.

A necromancia é considerada não só pelos usuários de magia das afiliações de Magia Europeia e Inglesas, mas também em um consenso geral por todo usuário de magia.

Até mesmo os próprios seguidores dos reinos da Vida consideram um tabu manipular sua energia a esse ponto.

– Magia da Morte... é isso então? – James murmurou com preocupação após sua reflexão.

– Cérebros e Ortros saberiam dizer mais ao certo, mas a primeira coisa que me vem à mente quando vejo esse estado é em necromancia avançada. – O mago afirmou, cutucando o esqueleto que atravessava partes da armadura com seu cajado. – Vou tentar utilizar um pouco de magia de recuperação para ter alguma certeza do que afetou o corpo, mas não garanto nada.

– As marcas nas armaduras não dão muita margem para teorias. – O arqueiro se viro para Glans rapidamente. – Glans, coloque o seu machado aqui por um momento.

– Hum? Sim. – O draconato obedeceu ao amigo e o observou comparando as lâminas de sua arma com as da armadura rasgada.

– Voltten, quantas costelas você tem?

– Hum? – O elfo estranhou a pergunta, mas manteve seu foco na magia. – Quatorze, porque?

– Duas a mais que o padrão humano... – James afirmou levantando um pouco mais a cota de malha que atrapalhava a visão. – Supondo que esse cara era um elfo de Althul, algo o perfurou, não foi uma arma, as marcas são mais, cilíndricas e profunda.

Glans e Voltten conferiram onde o arqueiro averiguava.

– Uma simples estocada de espada não teria o mesmo formato e efeito, o mesmo vale pra flechas. A lança de Aquiles talvez teria esse efeito, mas como aquele tipo de arma é “exclusiva” dos Cavaleiros Negros, duvido muito que seja ela.

– E eu tenho péssimas notícias. – Voltten complementou, assustado após efetuar sua magia.

– Mais uma para coleção? – James ironizou.

– Eu usei a magia de regeneração padrão para acelerar as células, mas ele não possui nenhuma sequer. – Voltten se afastou lentamente do cadáver. – Normalmente essa aceleração é a magia de cura padrão e mesmo que um cadáver seja decomposto, ainda vai existir um resquício de suas células por séculos.

– Isso significar necromante? – Glans questionou confusamente.

– Ou isso, ou algum ser comeu as células. – James afirmou receoso.

– Hum, quem comer células? – Glans questiona pensativo. – Eu conhecer muitos animais que comem muitas coisas.

– Células não são tão “comíveis”. – Voltten afirmou, cortando um pouco a confiança do draconato com receio.

– Células são pequenas a um nível extremo, a única coisa que come células são vírus. – James complementou.

Voltten olhou com surpresa para o arqueiro.

– Você também leu os livros de biologia da biblioteca do castelo? – Ele questionou com um leve brilho no olhar.

– Digamos que seja tipo isso. – Afirmou pensativo. – Mas se fosse um vírus os cadáveres estariam espalhados por toda a cidade. Se eles estivessem recolhidos, eles não seriam descuidados a ponto de deixar esses na porta da arvore.

– Invejo sua capacidade de formular teorias baseado em fatos supérfluos. – Voltten afirmou cabisbaixo.

– Não são bem supérfluos, cada caso tem um peso para a teoria... – Voltando a atenção para a árvore, James começou a andar. – Mas no fim, nós estamos apenas no zero.

– Vamos para a árvore então? – O mago questionou, enquanto via ao seu lado, o draconato acompanhando James, ele sentiu um frio correndo pela espinha e correu para perto das costas do arqueiro.

– Não temos muito o que fazer, mesmo que seja um necromante, temos que tentar encontrar os outros, ou vamos sair daqui só nós três.

Andando calmamente em meio a uma cena de combate que teve seu fim a tempos, os três companheiros seguiam o arqueiro que, na falta da figura santa do paladino e do líder cavaleiro, usava de seu conhecimento e noção para guiar o grupo.

Armaduras quebradas, ossos espalhados, inúmeras manchas de combate, mas a pedra do chão estava completamente límpida, sem mancha de sangue ou outra alteração de terreno.

A medida que seus corpos chegavam perto da porta, Voltten e James sentiram o peso da energia demoníaca do local.

O arqueiro escondeu seu receio com seu semblante confiante, já o mago não mudou nem um pouco perante aquilo.

Após a porta, uma grande ala se revelou. Um local tão grande quanto o tamanho daquela árvore aparentava proporcionar.

Como recepção, a ala possuía uma grande área de mesas e cadeiras, ao final de uma das direções haviam diversas cabines abandonadas.

Ao lado das cabines, estavam escadas em espiral que iam tanto para cima quanto para baixo.

Diferente de todas as casas e estabelecimentos da cidade fantasma, aquele lugar não possuía nenhum móvel fantasma ou alma perambulando por lá.

Porém, o contraste era nítido. Haviam moveis reais, objetos reais e coisas realmente peculiares.

Ao darem os primeiros passos dentro da estrutura, repararam que o piso de madeira fez um enorme rangido amedrontador que, aliada com a névoa do local, deixava tudo mais estranho.

A flecha no arco de James estava preparada para qualquer coisa que pudesse vir a acontecer. O machado do draconato também estava preparado para um ataque forte, o mesmo poderia ser dito do cajado de Voltten, mas a mente atazanada e amedrontada do mago provavelmente o atrapalharia.

Quando eles adentraram a sala e se puseram a explorar, um novo ranger foi ouvido.

Os frequentes sons de passos vindos de uma das escadas tomaram totalmente o foco dos três que já prepararam ataques.

Após longos minutos, um ser de véus brancos que lhe cobriam completamente apareceu. Em suas mãos, havia uma tocha e debaixo dos véus uma armadura tão branca quanto os véus.

Inconscientemente, os três lembraram de Parysas, devido as extremas semelhanças com as cores das vestes, mas tudo isso era perdido em sua face.

Escondido atrás de uma máscara dourada quase teatral, que representava uma face caricata neutra, o homem desceu as escadas de forma cuidadosa, seja para não pisar em seus véus ou apenas por estética.

– Lembre-se, nada de menções. – James reforçou, enquanto mantinha a mira fixada na garganta do homem de vestes brancas.

– Menções a minha pessoa não me impedira de interagir com vocês. – A figura respondeu com a sua voz incrivelmente normal, não se parecia com as de demônios ou espíritos, era uma voz viva e talvez humana.

– Hum? – Os três murmuraram de receio, não abaixando a guarda em nenhum momento, exceto por Voltten, que recuou vagamente para traz.

Raginel, Jameson e Glansis, estou errado?

Os três se encararam rapidamente.

– O seu nome é Glansis? – O arqueiro perguntou para o draconato receosamente.

– Ser nome de marca, apenas o Ancião usar nome de marca. – O draconato afirmou extremamente impressionado com os dizeres do homem de branco.

– Ninguém me chama de Raginel, como ele sabe? – Voltten sussurrou, trêmulo e assustado.

Os três esperam o homem descer as escadas. Logo após, ele se dirigiu aos três.

– Quem é você? – James questionou, apontando a ponta da flecha para o homem.

– Apenas um seguidor do fluxo, um arauto do destino, um devoto a Vida. – Afirmou o homem de forma majestosa, como se estivesse recitando uma prosa a um rei.

Os três não abaixam suas armas, mas começam a compactuar vagamente com o homem.

– O que diabos ele tá falando? – James questionou.

– O que estão fazendo aqui e o que fizeram com nossos amigos!? – Voltten tomou a frente e gritou para o homem de branco, a forma violenta era apenas um fruto de seu medo, coisa que James percebeu e se pôs na frente para acalmar.

– Amigos? – O homem de branco perguntou para si mesmo. – Edward, Dol e Aquiles, certo?

– Ele sabe até mesmo sabe o primeiro nome do Varis. – Voltten afirmou impressionado.

– Lamento ser o portador de más notícias, mas eles correm um sério perigo.

Todos simultaneamente avançaram de forma receosa.

– O que você fez?! – James questionou de forma ameaçadora.

– Não fizemos nada, mas esse local fez. – Respondeu, virando seu rosto para James.

O rosto falso da máscara foi levemente apavorante, mas nada que tirasse o foco do arqueiro.

– Explique-se. – Exigiu, se aproximando ainda mais do homem de branco.

– Apenas posso lhe fornecer respostas incompletas. – Afirmou calmamente o homem de branco. – Porém, o meu mestre lhe dará todas as respostas que precisar.

– Nos leve até ele! – Voltten e James gritaram acompanhados de uma batida de Glans em seu peito, todos de forma violenta.

O homem se virou de costas e seguiu novamente para as escadas.

– Me sigam. – Ele falou.

– O lugar é seguro? – Questionou Voltten com receio. – Digo, a escada pode quebrar ou esse cara pode não ser de confiança.

– A escada eu garanto que aguenta. – Afirmou James, tomando rumo a escada. – Porém, acho que sempre é bom mantermos a guarda em pé.

Mesmo rangendo, a escada se manteve forte.

A enorme espiral acabou depois de longos minutos de subida, dando a visão de um lugar magnifico feito pelos antigos elfos do lugar.

O topo da árvore possuía construções de madeira bruta e diversas estruturas complexas, como se fosse um bairro inteiro no topo da arvore.

Espalhado pelo local, diversas pessoas usando dos mesmos conjuntos de vestes do homem de branco estavam fazendo as mais variadas coisas.

Alguns cuidavam da comida, outros cuidavam de feridos, outros apenas patrulhavam. Ao todo, eram quase cinquenta pessoas, todas com máscaras que possuíam apenas quatro variações – a neutra, a feliz, a assustada e a zangada.

Todos olharam para o guia do trio após ver as três figuras variadas.

Logo em seguida, duas figuras que usavam a máscara zangada se aproximaram do guia.

Eles trocam palavras rápidas e diretas. Mesmo com sua audição completamente focada, o arqueiro não entendeu nenhuma das palavras, confundindo-as com múrmuros.

– O que eles estão dizendo? – Sussurrou Voltten para James.

– Não consigo entender... –  Respondeu o arqueiro em mesmo tom de voz.

– “Ezes eram ós que o peneas falo” – Sussurrou Glans para os dois, formando um pequeno grupo isolado.

– Você conseguiu ouvir? – Voltten questionou impressionado.

– Canal auditivo bem peculiar. – James ironizou brevemente, relembrando o acontecimento com a explosão de forças no coliseu.

– Você não deve compreender todas as palavras, mas pelo visto eles previram que nós iriamos vir aqui. – Voltten comentou rapidamente.

– Eles acertaram nossos nomes, até mesmo os que não sabíamos. – James desviou o olhar para Glans, intrigado com a situação. – O que diabos eles são...

– Ele dizer ser da Vida. – Glans comentou rapidamente.

– A Vida... – James murmurou para si enquanto pensa. – Eu nunca ouvi muitos relatos sobre ela, o máximo que eu me lembro foi que boa parte das histórias vinham do extremo sul, ou da América Latina.

– Não lembro de ouvir ou ler relatos de lá. – Voltten comentou intrigado.

– Glans também. – Complementou o draconato, cabisbaixo.

Cortando os sussurros dos três, uma figura de máscara zangada os interrompeu.

– Vocês! – A voz era forte e feminina. – Escolham um para lhes representar!

– Hum? – Os três murmuram intrigados.

– O mestre falara com apenas um, escolham o que deverá ser digno de suas palavras!

Se encarando rapidamente, os três se veem em um impasse.

Na mente dos três, o tal “mestre” que o grupo enfatizou poderia trazer respostas, mas os riscos em confiar em uma tribo religiosa que usam como marca vestes brancas e máscaras teatrais de expressões duvidosas eram altos.

Porém, medidas deviam ser tomadas.

Por Tisso | 08/10/20 às 17:25 | Ação, Aventura, Fantasia, Sobrenatural, Magia, Mitologia