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Capítulo 72 - Eu Irei Proteger Quem é Importante

Evalon: os Seis Lendários (E6L)

Capítulo 72 - Eu Irei Proteger Quem é Importante

Autor: Tisso | Revisão: Matheus Freitas (Leia SZPS)

– Ei pai!

– Hum?

– Pode me contar uma história?

–Hum, a quanto tempo não fizemos isso? – Edward perguntou com uma complexidade intensa, fazendo de tudo para manter a máscara de felicidade. – Quer ouvir uma história sobre o que?

– Hum... Não sei...

– Já sei, por que não inventamos uma?

– Inventar uma história?

– Inventar um mundo para si, uma realidade em que você se sente confortável, uma história em que... as coisas de fato acabam bem...

– Pai? Por que está chorando?

– Nada, apenas lembrou-me de uma coisa. – Sem perceber, lágrimas escorreram pelo rosto do paladino. Mas ele rapidamente cobriu o rosto e sorriu para a criança.

– O que é?

– Nada, não é nada...

– Agora fala o que é! Eu não quero dormir com essa dúvida...

– Às vezes, não podemos saber o que os outros passam, não podemos apenas pedir para eles se abrirem, não podemos obrigá-los a cooperar. Por isso, devemos entender o lado deles de ficarem calados e seguirem tal caminho.

– Eu não entendi.

– É, eu também não entendo. – Edward afirmou, olhando vagamente para a porta de sua casa meio aberta, vendo que o sol ia se pôr logo. – Ei, o sol vai se pôr logo, vamos criar uma história ou não?

– Hum, sim!

Alexandria Leurice, meio elfo negro e elfo da floresta, morta em mil duzentos e cinquenta e cinco com apenas seis anos de idade. A causa da morte foi supostamente a mesma da mãe – sequestro e esquartejamento.

De longe, aquela criança pequena era o gatilho da mais potente angústia para o coração de Edward.

A Mamba-Negra em sua mente já o infernizava diariamente contra a vontade, seu veneno aos poucos perdia a qualidade, coagulando menos entre os sentimentos do paladino, deixando menos angustiado e traumatizado, aumentando seu foco e determinação como em uma droga e dois gumes.

Porém, todo homem tem seus pontos fracos, ironicamente, esses pontos sempre são suas esposas e filhas – Edward não chegava nem perto de ser uma exceção.

O paladino sentia-se um completo lixo perante sua filha, aquele ser sorridente esbanjando e aflorando alegria. De certo modo, esse sorriso rasgava seu coração como um doce e gentil lâmina em seu peito.

Ao final do dia, quando a esposa voltou dos campos de onde trabalhava como agricultora. Depois de preparar o jantar e colocar sua filha para dormir, eles se deitaram, mas Edward não conseguia dormir. Se revirando um pouco e notando que sua esposa estava dormindo, Edward saiu da casa para respirar.

Fugindo entre a cidade, ele acabou em um beco sem saída, onde seguiu até o fim do mesmo, ele caiu de joelhos e começou a chorar em um pranto silencioso.

– Edward? – A voz no início do beco chamou pelo nome do paladino no meio de seus lamentos.

Ele parou seu choro, retraiu e moldou seu rosto da forma mais rápida possível, se virou-se de costas e viu quem tinha lhe chamado e antes mesmo de reconhecê-lo se pôs a falar.

– Sim, no que posso ajudá-lo? – Os olhos fechados do paladino, que ainda expelia um pouco de lágrimas, mascaravam sua tristeza junto de um sorriso.

A figura de Kai no final do beco, iluminada pelos raios de prata da lua, realçavam sua pele pálida e denunciavam a presença dele.

– Estávamos a sua procura... – Ele afirmou receoso. – Bem, era mais eu que estava.

– Sim? o que precisa? – Edward se aproximou, tendo sua pele cinza e a armadura pesada emprestada reveladas rapidamente.

– Você.... Você está estranho? – Ele afirmou, revelando uma lança que se escondia facilmente atrás dele. – Eu não quero brigar, só... vamos ir daqui meia hora e eu quero saber o que tem com você...

A arma não era segurada com firmeza, as mãos trêmulas de Kai deixavam aquilo sendo meio medíocre, mas Edward sabia da verdade.

Após a invasão, Kai sobreviveria. Na verdade, ele até se saiu tão bem quanto muitos de lá, mas os traumas e afins fizeram os dois se separarem.

– Você me conhece a quanto tempo, Kai? – Edward perguntou, desfazendo vagamente o sorriso. – Dez anos, vinte talvez?

– Desde que nós éramos crianças, eu acho. – Ele afirmou pensativo. – Meus pais conheceram os seus em peregrinações, você fugia de casa para brincar com você e os outros quando dava. Matheus Freitas: Taquipariu hein Edward, conhece o cara desde a infância e ainda teve dificuldade para lembrar dele? Que péssimo amigo tu seria...

– Usávamos de seu tamanho para comprar bebida com nossas mesadas, até que nossos pais descobriram. – Complementou nostalgicamente. – No fim, quando ninguém voltou da Guerra dos Povos você virou o líder...

– E você sabe que tipo de líder eu sou...

– Um medroso. – Ele afirmou comicamente. – Sem ofensas.

– Eu não tenho confiança em batalhas, todos do grupo me importam, claro. – Abaixou a lança brevemente. – Quantas vezes nos esgueiramos e nos escondemos apenas para evitar combates?

– E quantas pessoas necessitadas ajudamos por conta de seu coração mole? Nunca dizendo um não. – Edward ironizou. – Foi assim que eu conheci a Wyntree...

– Eu não sou um bom comandante, não é mesmo? – Ele abaixou completamente a lança e a cabeça de forma pacífica. – Agora mesmo, eu vendi o serviço de todos os nossos soldados para conseguir alavancar dinheiro. Mesmo que falem que sou uma estrela, eu sou apenas uma pessoa que luta para que os outros tenham uma imagem de esperança...

Edward viu por um momento Kai como assassino indireto de sua esposa, mas não pode culpá-lo nem por um segundo sequer.

Kai era egoísta, tinha medo de perder aqueles que eram importantes pra ele e os importantes para os importantes, não tinha coragem para ser um Às matador. Apesar de um estrategista razoável, ele tinha algo além do que todos os seus inimigos tinham, Kai tinha um coração justo e digno.

Uma alma bondosa que não desejava ferir, apenas buscava a paz daquele de seu grupo – E assim como todo ser vivo, ele cometeu muitos erros no processo.

– Kai... – Edward indagou. – Eu não vou mentir, eu não sinto a dor de meu ferimento.

– O que? – Ele questionou intrigado.

– Em meus sonhos eu pressenti um mal se aproximando. – Edward se sentiu mal por continuar a mentir para aquele Kai, mesmo sabendo que ele era apenas uma ilusão, cada dor foi realmente sentida. – É um mal pequeno, um mal que eu posso cuidar, senti que não devia incomodá-lo já que estávamos na véspera de invasão. Me desculpe. – Afirmou olhando para baixo como um sinal de vergonha e arrependimento.

Kai ficou trêmulo e um pouco ofegante, mas engoliu todos os sentimentos em uma explosão de confiança em seu amigo de longa data.

– Edward... – Ele começou a proferir com um tom neutro em sua voz. – Eu lhe dou a tarefa de proteger essa vila essa noite.

– Será mais que uma honra seguir essa ordem... – O elfo negro afirmou fitando sua visão com a de Kai. – O senhor não irá se arrepender.

Os dois voltaram juntos para a casa do paladino, onde sua esposa aguardava preocupada.

Após alguns minutos de conversa com a mesma, Kai partiu para além do horizonte, junto do seu grupo de soldados, médicos e padres, mas deixando de presente de despedida uma espada e escudo, ambos de metal.

Junto dos presentes, foi trocado um último olhar entre os dois.

O meio gigante mangaliano tentava ser frio e confiante – algo que não conseguira ser – perante o olhar do elfo negro que, dessa vez, revelou o olhar atrás da máscara. O olhar forte, determinado, preparado e até vingativo queimava em um fogo esmeralda o espirito de Edward, queimando as vinhas espinhentas que o restringiam, derretendo o ferro da lâmina em seu coração e carbonizando a Mamba-Negra enquanto seu veneno era corroído.

Por segundos, Kai viu na imensidão vermelha e negra dos olhos de Edward e traços verdes se sobrepondo, mas o mesmo ficou quieto por acreditar que aquilo era um delírio de sua mente preocupada.

Edward trancou sua família em sua casa com o comando de só abrirem a tranca com o nascer do sol, o mesmo foi aconselhado para as outras famílias de camponeses que residiam na pequena vila.

Tão digno como um samurai e tão honroso como o paladino que era, o elfo negro ficou no centro de sua vila – lugar onde conseguia ver com facilidade todas as casas e entradas da mesma.

Em suas costas, preso com couro e corda, estava o escudo dado por Kai – uma peça circular de metal um pouco maior que seu antebraço – em suas mãos, a espada fincada no chão de terra batida e em seu interior, a alma em chamas esmeralda queimava, esperando uma direção.

Naquele momento, Edward era um com o ambiente a sua volta, quase como uma estátua, ele residiu no mesmo lugar, parado sentindo apenas as vibrações e sons a sua volta.

O vento cantava um assovio agudo agoniante, os grilos martelavam sussurros existenciais, os poucos pássaros batiam as assas pelos ninhos feitos em alguns tetos de palha da vila complementava o cenário perfeito, que por sua vez era iluminada pela grande e majestosa lua de prata de Evalon.

A concentração era tamanha que o paladino conseguia ouvir não só sua própria respiração, como também o ranger quase que nulo que sua armadura produzia quando o mesmo estufava o peito de ar para depois inspirar.

O vento soprava e cada vez mais e mais ele se perdia, se tornando um silêncio massivo perante uma vila quase deserta. Foi então, que alguém agiu.

A origem do som foi identificada de imediato pelo paladino que, em um movimento suave e rápido, arrancou o escudo de suas costas já o equipando e saltou vagamente para trás, armou um ataque vertical com a espada e, antes mesmo que tivesse compreendido completamente a situação.

Já havia acertado o assassino que lhe dera o bote com tanta força que separou sua cabeça em duas metades quase que iguais.

O ser a sua frente era genérico, porém reconhecível. Na mente do paladino já havia decorado inúmeras armaduras, aquela não era diferente das usadas pelos assassinos menores da Interfectores Del Amine.

Uma armadura de couro preta – muito provavelmente feita em massa – que protegia de ataques vagos e pequenos, mas que não chegavam perto de se comparar a armadura atual do paladino que mais parecia um pedaço maciço de aço perante um couro de vaca barato.

O homem em sua frente havia preparado um ataque para ferir seus ombros e o matar internamente, a abertura entre seus braços – que permaneceram segurando os aríetes por alguns segundos antes de caírem assim como todo o corpo – provaram isso.

Edward viu lentamente o inimigo caindo em seus pés enquanto formava uma poça de sangue.

O paladino desviou a visão para os telhados rapidamente, dando voltas ao seu redor vagamente. Era de sua ciência que eles não iriam atacar as pessoas com a forte presença dele na situação.

Porém, o mesmo sabia que, diferente daquele soldado que teve um fim suicida, os outros de seu grupo atacariam em bandos para não acabar como o companheiro.

Isso só o fez ficar mais e mais receoso, cada vez desviando mais e mais a visão, temendo que a viseira do elmo o atrapalhasse.

Aos poucos, os passos na palha dos telhados ficaram mais frequentes e próximos, a luta de verdade iria começar.

Sem saber com quantos seriam, Edward respirou e se manteve firme, apenas recitando uma oração para pedir não só gloria na vitória, mas também o mínimo de piedade para seus inimigos.

Por Tisso | 24/11/20 às 16:00 | Ação, Aventura, Fantasia, Sobrenatural, Magia, Mitologia