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Capítulo 74 - Soar Melancólico de um Desespero

Evalon: os Seis Lendários (E6L)

Capítulo 74 - Soar Melancólico de um Desespero

Autor: Tisso | Revisão: Matheus Freitas (Leia SZPS)

Arremesso olímpico, uma modalidade de atletismo criada com base no arremessar de uma esfera com o peso de cerca de 7 Kg.

Voltten possuía um pouco menos de cinquenta quilos – cerca de sete vezes o peso de uma esfera usada na modalidade – e Aquiles não só possuía um físico extremamente favorável, ele praticamente era um monstro no quesito de força.

A primeira ação do cavaleiro quando chegou na frente do elfo, que latejava de joelhos no chão enquanto a poça de urina misturada com sangue se formava, foi pegá-lo pelo queixo e o rodopiar em um giro rápido de quinhentos e quarenta graus – tudo isso sem respirar – o arremessando em direção a Glans com uma velocidade de projétil incrível.

Glans recebeu o amigo elfo e rapidamente o deixou com os cultistas, partindo para frente tentando agarrar o amigo que seria esmagado.

-- Aquiles! Correr! – Glans balbuciou, tentando falar da ameaça, mas seu formato de falar limitava a passagem da mensagem claramente. – Você esmagado! Vem!

Glans olhou para o amigo ao tentar correr, mas o mesmo logo tropeçou. Quando olhou para seu pé, Aquiles viu com detalhes raízes brancas e cintilantes puxando o pé esquerdo da armadura. Ele sacou a espada enquanto golpeava sua perna coberta com armadura, com o intuito de se livrar das raízes, mas cada vez e mais e mais as raízes subiam e seu ar acabava.

-- Aquiles! – Glans continuava a gritar assustado e pasmo, receoso sobre o que fazer.

-- Ele vai ser esmagado... – Um cultista assustado murmurou, tirando o foco do elfo que estava ajudando e alertando Glans novamente.

-- Droga! – O arqueiro ficou irritado e atirou suas flechas após atear fogo nas mesmas, acertando a árvore, mas não conseguindo nenhum resultado.

Os olhos de Glans viajaram pelo cenário, sempre receosos e assustados. A cada segundo, o barulho do elevador se aproximava, dando cada vez mais a fisgada de medo no draconato que não achara opção para salvar o amigo.

Em um grito gigantesco, Glans tomou a atenção de todos no local. O draconato sacou seu machado e mirou na árvore, o arremessando em diagonal e o prendendo na árvore, fazendo-a sangrar uma seiva negra gigantesca.

Quando olharam novamente, Glans já estava a um passo dentro da câmara com um cantil de metal em seus lábios.

-- “Aquela bebida...”. – Aquiles comentou ao lembrar do destilado feito pelo taverneiro que tentou copiar as especiarias de Harenae, mas acabara por criar a bebida com mais teor alcoólico que ele já viu e bebeu. – Vira! Vira! – impulsionou animado

Como uma verdadeira cena de livro de história fantasiosas, Aquiles presenciou o grande dragão vermelho ao seu lado abrir a boca emanando labaredas dos cantos da boca. Matheus Freitas: Vá Glans, Lança Chamas!!!

Em um arroto forte, toda a árvore foi coberta por um manto forte e vívido de um fogo tão vermelho quanto sangue puro.

Aquilo se manteve por segundos, ao ponto do gás ser substituído por uma fumaça branca. As raízes ruíram aos poucos e tirou o capacete élfico, dando uma fungada desconfortável, mas segura.

-- Valeu escamoso! – Aquiles agradeceu se recompondo.

-- O teto vai cair! – Glans gritou, pegando na mão do cavaleiro enquanto voltava sua visão para trás, fechando a boca no processo.

As duas pilhas de músculos correram desesperados e chegaram no local seguro se jogando seguidos de uma explosão e uma nuvem de poeira. A câmara anterior foi substituída por uma completamente nova, com tochas penduradas e uma alavanca no centro.

Recuperados, Glans e Aquiles foram recepcionados por Voltten, atrás dos cultistas assustados, o mago se recuperou aos poucos, se levantando e se ajustando – mesmo fedendo a urina e sangue.

-- Você deixou isso cair quando te jogaram. – Um cultista alegre afirmou lhe entregando o cajado novamente.

-- Obrigado. – Voltten agradeceu, pegando o cajado e o usando como bengala para se aproximar de Aquiles, reparando de imediato na falta do elmo. – O que aconteceu?

-- Ilusão por um demônio árvore, arremesso de peso humano, armadilha de raízes, um dragão cuspindo fogo... – Aquiles falou, recuperando o folego vagamente. – Coisas que fazemos em uma sexta-feira à noite?

-- Sexta? – Glans questionou intrigado e não entendendo a ironia.

-- Ah, e o Glans sacrificou o machado.

-- Droga... – Voltten desviou o olhar para onde estava a árvore, se surpreendendo com a falta da mesma. – Pelo visto fomos para algum lugar.

-- Ou o lugar foi até a gente. – Aquiles sacou as duas espadas que roubou junto da armadura. – Consegue usar, Glans?

-- Hum... – O draconato pôs a mão no punhal da espada com as pontas dos dedos.

-- É, vai ter que ser no soco. – Afirmou pegando a espada élfica de volta e tomando posição no grupo. – Arqueiro, atire para trás.

-- Hum? – Os cultistas murmuraram curiosos. – Como?  

-- Um tiro nas costas, vamos medir distância. – Complementa chegando mais próximo do arqueiro.

-- Hum... É uma excelente ideia! – O arqueiro afirmou, preparando sua arma. – Lá vai!

Após o disparar do projétil, ele alcançou o final do corredor em pouquíssimos segundos. Na mente de Aquiles, aqueles corredores não mudariam de repente, eles demorariam mais para dobrar, fazendo com que a flecha demorasse mais para alcançar o final.

O que lhes reservava era um beco sem saída, logo sua única saída era o elevador. Aquiles esperou todos se reunirem novamente para ver o que iriam fazer.

-- Bem, eu nunca lidei com um desses... – Aquiles afirmou, dando um passo na nova câmara elevador. – Mas para tudo tem uma primeira vez.

-- Vamos usar o elevador? – Um cultista assustado questionou de relance.

-- É isso ou continuar em círculos. – Retrucou olhando vagamente para trás, chamando todos com um gesto de mão.

-- Ele tá certo. – Glans afirmou o seguindo, mostrando confiança.

-- Infelizmente é verdade. – Voltten complementou, fazendo o mesmo.

Aquiles rodeou a alavanca, ficando frente a ela e aos cultistas, ao seu lado, como uma espécie de guarda costas, seus amigos o acompanharam, sentindo o ranger do solo metálico e o movimento minúsculo das correntes.

-- Então? – O elfo ruivo questionou, olhando para os cultistas receosos.

Lentamente os espadachins entraram na câmara do elevador, seguido do arqueiro e dos assustados. Aquiles segurou a alavanca com receio, sentido vagamente um frio no corpo inteiro.

-- Apenas vi essas coisas nas explicações do Cérbero... – Ele murmurou olhando para cima, se preparando para puxá-la. – Certo... Lá vai!

O cavaleiro empurrou a alavanca para a direita, descendo-a junto de seu braço para o chão.

Após ela se retrair e voltar para o estado ereto com um mecanismo de mola, as correntes começaram a soar e a câmara a subir, Aquiles também ajeitou sua posição e esperou o que aquilo resultaria.

Não demorou muito para perder a vista de entrada dos corredores, Aquiles e Voltten se encararam vagamente ao verem os cultistas conversando no particular, logo um deles – um máscara assustada – deu um passo à frente.

-- Acho que precisamos contar uma coisa para vocês. – Ele falou, mais estável e neutro do que normalmente estaria.

-- Hum? – Aquiles questionou incomodado. – Vocês omitiram segredos relevantes?

-- Não são segredos de combate, mas talvez seja útil que vocês saibam disso. – Ele afirmou de maneira receosa. – Não sabemos ao certo, mas a Morte e Lúcifer tem uma certa relação.

-- “Relação”? – Voltten questionou, se intrometendo rapidamente.

-- Nós não sabemos o que é, talvez seja um pacto ou aliança, mas isso vem nos incomodando a gerações. – O cultista tremeu vagamente ao falar, segurando seu canalizador mágico com força. – A Morte é a contraparte da Vida, naturalmente eles são nossos inimigos jurados.

-- Em qual ponto quer chegar? – Aquiles questionou intrigado.

-- Necromantes não são totalmente demônios porquê precisam usar magias santas com mais consciência.

-- Então está dizendo que devemos ter piedade por ele não ser um completo demônio?

-- Não, estou apenas dizendo que ele não vai agir como um demônio comum, ele será algo além disso.

Aquiles ficou calado enquanto encarava o cultista.

-- Não é uma informação completamente inútil, pode vir a calhar. – O cavaleiro afirmou em um tom sério e amigável depois de um tempo, fazendo assim, o monge ir ao seu grupo novamente.

-- Realmente faz sentido... – Voltten começou a se questionar. – Eu não estudei tanto sobre necromantes, achava que usassem só magia negra, mas conseguir intercalar entre magia santa da morte e magia negra é algo extremamente curioso.

-- É, realmente. – Aquiles respondeu pensativamente enquanto olhava para o chão.

A especialidade de dominar dois ou mais domínios divinos ao mesmo tempo era algo que o cavaleiro já sabia a tempos, mas uma relação com a Morte e Lúcifer era de fato uma preocupação.

A primeira coisa que vinha a mente de Aquiles, fora os relatos de Edward no orfanato de Kranbar – que mencionavam um mago invasor que manuseava uma foice e produzia magias de aura roxa –, a segunda foi o que lhe causara a cicatriz em seu peito, o invasor de Cartan.

Fora as alegações de Varis sobre o envolvimento da Ceifa e alguns efeitos relatados na autópsia do primeiro caso serem compatíveis com experimentos de miscigenação artificial, usando tanto magia negra quanto magias divinas da morte, agora havia a carta de uma confirmação de ligação entre os dois na mesa.

O cessar de pensamentos do elfo veio com o soar das correntes. Um instrumento estava tocando com a acústica perfeita, sem o mínimo eco de caverna ou falha do artista.

-- O que é isso? – Um cultista assustado questionou se levantando enquanto empunhava firmemente seu canalizador mágico.

-- Acho que chegamos o mais longe do que seu culto já chegou. – Aquiles afirmou, sacando suas armas. – Preparem-se!

Todos se aquietaram e sacaram suas armas de forma receosa, enquanto o elevador subia e o som melancólico e existencial só aumentava.

Chegou num ponto que as correntes não podiam mais ser discernidas, como se elas estivessem dançando com a melodia e a complementá-la de uma forma inexplicável.

Após longos minutos confusos, o elevador chegou no seu fim.

A visão de uma gigantesca igreja era vista logo à frente de Aquiles, que percorreu seus olhos pela mesma, tão rápido ao ponto de localizar, quase que de imediato, a figura tocando um instrumento no exato centro do final daquela magnífica construção.

A luz que o iluminava vinha de mosaicos surreais e com imagens simbólicas que refletiam a luz branca mais pura e límpida. Em cima do instrumento, havia um gigantesco mosaico com a figura mais bela do local.

Era um desenho em vidro de uma espécie de anjo negro, coberto por seu manto roxo e segurando sua foice no meio do cabo, sua pose dava a entender que o mesmo estava aterrissando no meio de uma multidão. Seus braços abertos davam a visão de sua pele cinza e de suas olheiras negras, porém, no centro delas, haviam dois olhos dourados.

Espalhados pelo local haviam inúmeros bancos de igreja – a maioria com tamanhos variados – com cadáveres, esqueletos, teias de aranha e mofo, principalmente mofo.

Tocando isolado no final de tudo aquilo, havia um ser minúsculo perante um grande órgão, mas imenso perante as pessoas normais que o confrontavam.

Ele possuía um manto negro que envolvia seu corpo, mas sua nuca exposta revelava um olho vermelho de íris negra. Seu chapéu era de pano e lembrava vagamente o de Sansa. O pouco que saia de seus cabelos revelava uma espécie de borracha que os grudou, deixando-os com a aparência de piche.

Ele se virou lentamente, saindo de sua cadeira, mas realizando um feitiço que projetara um vulto de seus braços que continuaram a tocar o instrumento.

Visto de frente, o necromante era mais assustador do que aparentava de costas. Sua armadura – se é que se pode chamar assim – era feita de ossos e couro élfico, lapidados e unidos ao ponto de aparentar serem ossos gigantescos.

Seu rosto era rasgado e deteriorado, aparentando sempre que a mandíbula iria cair. Haviam três olhos do lado esquerdo, um deles sendo de mosca e os outros dois sem pupilas, no lado direito um olho reptiliano negro de íris vermelha que se focou em Aquiles.

Por fim, o mesmo emanava fumaça roxa atrás de seu manto, tal fumaça o acompanhava ao andar.

-- Aquiles... Hyden... – A velha voz humana misturada com a de lamentos e gritos de desespero eterno dos demônios, amedrontou completamente o grupo que rapidamente voltou a atenção ao cavaleiro esperando uma reação.

Por Tisso | 01/12/20 às 19:30 | Ação, Aventura, Fantasia, Sobrenatural, Magia, Mitologia