CAPÍTULOS
OPÇÕES
Cor de Fundo
CONTROLE DE FONTE
HOME INDEX
Capítulo 75 - O Cínico não Morto

Evalon: os Seis Lendários (E6L)

Capítulo 75 - O Cínico não Morto

Autor: Tisso | Revisão: Matheus Freitas (Leia SZPS)

A vida, para a maioria dos seres, é finita.

Os deuses alcançaram avatares e meios de se tornarem imortais ao tempo, mas não ao espaço. Abaixo deles, estão suas criações, raças com prazos de validade variados – elfos vivendo no máximo duzentos anos, humanos comuns de setenta a noventa, draconianos podendo transcender séculos e isso sendo apenas uma fração do conhecimento geral – e aqueles que manipularam a magia para atrasarem cada vez mais o relógio.

Teoricamente, existem formas mágicas de alguém se tornar imortal.

Desde alquimia, que na teoria, regenera células mortas e as substitui por novas; inúmeras magias focadas em reforço corpóreo extremamente específicas; pactos e devoções a figuras e divindades alheias; entre outros.

Esses eram os métodos mais comuns – mesmo sendo surrealmente raros – encontrados pelo mundo, mas o que mantinha o músico necromante em pé era algo tão único quanto um milagre divino.

Seu corpo era um homúnculo demoníaco, com partes cortadas e remendadas de diferentes tipos de demônios e vítimas dos mesmos, mas o seu órgão cerebral ainda era o mesmo de quando fora humano.

Já foi antigamente um homem comum, um seguidor da morte, mais especificamente da Ceifa. Guiados pelo seu deus, o grupo em questão atacou a cidade élfica em sacrifício, logo, na mesma noite, uma projeção lhes apareceu.

Um vulto negro encapuzado, semelhante a um anjo negro, um ser que esbanjava energias santas da morte.

Chamando a atenção de um dos homens do grupo, ele colocou todas as almas de seus companheiros em sua tarefa.

– Proteja o núcleo desse local que eu o amaldiçoarei. – a representação ordenou.

Com todos caindo simultaneamente, o homem em questão era o único vivo no local. Ele estava receoso, mas vendeu sua alma a devoção em instantes.

– Aceitarei esse dever com a minha alma, mas meu corpo não conseguirá suportar tal pedido. – Afirmou com êxtase.

– Pobre homem. – A Morte lhe disse calmamente. – Seu corpo mortal reprime suas capacidades verdadeiras, mas, como um de meus seguidores, eu lhe ofereço uma oportunidade maior...

Seu corpo foi rapidamente perfurado por garras invisíveis que lhe espremeram o peito.

– Usarei de meus domínios para transformá-lo em um ser imortal ao tempo, alguém que independentemente dos séculos, permanecerá em pé. – Ela afirmou, levantando seu rosto com suas mãos frias de unhas grandes. – A única coisa que lhe impedirá de continuar será aqueles que lhe ferirem.

– Não deixarei fazer isso com esse corpo concedido! – Ele respondeu, encarando as íris douradas da divindade com respeito e admiração.

– Perfeito...

Por quase dois séculos, ele ficou vigiando aquele local, sempre tocando seu instrumento. Sua promessa com a divindade não se manteve por muito tempo, em seu primeiro século vigiando o local, um batalhão de cavaleiros acabou por deslocar sua mandíbula, realizando um ferimento no corpo perfeito que lhe fora entregue.

Porém, aquela havia sido sua única falha, mesmo com o passar dos tempos, ele continuou com o controle do local, fazendo novos prisioneiros que sucumbiram a seu covil demoníaco que se moldava a seu prazer.

Até aquele grupo chegar.

O elfo da floresta havia saído de sua maldição e ganhou facilmente de seus soldados. Um ser que despertava interesse e talvez medo no ancião necromante, dando-o vontade de encará-lo frente-a-frente, o que levou a situação atual.

– Nós viemos colocar um ponto final em sua dominância! – Aquiles gritou bravamente perante o inimigo gigantesco, que só crescia visualmente nos olhos dos desafiantes.

– Você é um dos poucos que saiu de meu feitiço, nem mesmo a fé de seu companheiro conseguiu resultados até agora... – O necromante afirmou, erguendo a mão na altura do peito e reunindo vagamente energias santas. – ...Seu assassino, muito menos...

– O que você fez com Edward e Varis!? – Voltten gritou do lado de Aquiles, tentando colocar moral, mesmo que estivesse assustado.

– Perguntem para seu suposto líder. – O necromante proferiu de forma requintada e educada, diminuindo vagamente o som do instrumento que suas mãos espectrais tocavam. – Ele passou pelo mesmo tipo de experiência que eles estão passando.

– Então conseguiríamos ajudá-los? – Voltten se questionou vagamente.

– O máximo que vocês farão é adiantar a hora que eles cairão. – Fechando sua mão em uma pequena explosão de energia roxa, abrindo novamente revelando uma esfera negra que flutuava em uma teia de aranha formada com base em seus dedos. – Mas devo admitir, a décadas ou séculos não via seres tão determinados, nem mesmos esses seguidores da Vida chegam perto.

– Quer dizer que fomos todos inúteis? – Um máscara assustada perguntou, se escondendo atrás de Glans vagamente.

– Oh, não diria inúteis. – Com a mão livre, o necromante invocou mais um braço que flutuou pra perto de um dos bancos da igreja, trazendo consigo o tronco arrancado e sem braços de um cultista feliz apenas com a cabeça. – Esse seu amigo, Leonard, foi um excelente guerreiro que vagou pelos meus corredores e chegou aqui, não inteiro.

Ele jogou o corpo no piso da igreja como forma de humilhação ao culto da vida.

– Valorizo sua capacidade de liderar todos de seu grupo e de mantê-los no controle para não acabarem igual ao pobre Leonard. – O necromante começou a soar melancólico, enquanto dava passos pequenos na direção do grupo.

– Leonard... – Os cultistas sussurraram de forma assustada.

– Ele foi um dos melhores soldados que nós tínhamos. – Um cultista assustado afirmou tremendo.

– Aquiles... – A espadachim mulher falou com sua voz normal enquanto tremia sua espada. – Permissão pra recuar?

– Negada. – O cavaleiro afirmou friamente. – Um soldado não ganha a guerra. – Ele focou na esfera negra entre os dedos do necromante. – Um grupo sim.

Todos se puseram em posição de ataque, Voltten lentamente preparou a bola de fogo em seu cajado e Glans se posicionou quase igual um lutador de sumo, pronto para arrancar.

– Escamoso, atrás de mim. – Aquiles sussurrou enquanto preparava mentalmente o movimento. – Você enrola, espadachins, pulem nos ombros de Glans e tentem acertar qualquer coisa. Arqueiro, na cabeça. Voltten, quando eu falar. Curandeiros... – Aquiles franziu a testa lentamente. – Façam seu trabalho, se necessário.

Rapidamente o cavaleiro guardou uma de suas espadas, tendo uma pouco de dificuldade para segurar uma espada leve com as duas mãos. Seus olhos fitaram os olhos bizarros do necromante, mas seus sentidos previam a bola negra sendo arremessada.

Logo Aquiles disparou na direção do necromante, que rapidamente manipulou a bola de energia com as duas mãos e a jogou como uma esfera instável na direção do elfo ruivo.

Porém, aquilo não era uma situação nova para Aquiles – não necessariamente.

Os inúmeros meios de contra-ataque mágicos passados e ensinados por Ortros não eram só para os poucos padres, sacerdotes e paladinos de Tac Nyan, mas também para os clérigos e soldados dos cavaleiros negros.

Esferas de energia são naturalmente instáveis. Elas dependem de uma grande capacidade do invocador para mantê-la em um formato perfeito, isso justifica o fato de que, em certa distância, a esfera fica tão instável que explode automaticamente. Mas, em uma distância tão próxima como a que Aquiles estava do necromante, a esfera seria sólida e maciça, pelo menos até que o necromante a quisesse naquele estado.

A uma distância quase nula, Aquiles sentiu as energias de seu corpo sendo sugadas para dentro da esfera, mas logo ele usou da tática para literalmente rebater aquela magia.

Quando a magia encostou em sua espada, ela transmitiu raios negros enquanto esfriava o metal ao ponto de fazer pequenas lascas de gelo surgirem. Porém, Aquiles permaneceu firme perante aquilo e rapidamente jogou a lâmina para um lado aleatório, rebatendo a magia como uma bola de basebol. {Matheus Freitas: Home Run!

A magia varou alguns bancos, os destruindo com explosões menores até que chegou na parede da igreja, que teve a área atingida deteriorada e congelada.

Quando o necromante voltou sua visão para Aquiles, ele só viu o vulto do mesmo passando a um metro de seu lado. Quando seu corpo se virou para reagir, um soco certeiro foi dado um pouco abaixo do peito.

Glans estava a socá-lo, revelando a verdadeira altura do necromante – cerca de dois metros e sessenta, trinta a mais que o draconato.

Um soco foi armado na direção do rosto do draconato, mas logo ele reparou no que ia se suceder.

As moscas normais enxergam o mundo cerca de quatro vezes mais rápido, tendo sua visão desviada para Aquiles, ele não se preparou para o golpe de Glans, mas, agora com sua visão focada na direção do elevador, ele pôde ver os dois cultistas espadachins correndo, enquanto uma flecha viajava para sua cabeça.

Em segundos, ele se propulsionou para trás com um pulso mágico de ar. Enquanto os espadachins saltaram e subiram nas costas do draconato, dando um segundo pulo e se apoiando no ombro de Glans.

As modificações das armas dos cultistas vibravam rapidamente, dizendo-lhes onde atacar, mas o necromante decidiu se defender perante o ataque triplo. Ele invocou mais braços para lhe rodear, eles eram como fantasmas de seus membros, que se moviam como as mãos de um maestro.

Os braços eram fracos e se moviam bem lentamente, mas eles conseguiram facilmente bloquear os golpes de espada como duas armaduras pesadas que flutuavam no ambiente. Porém, a flecha que foi lançada, acertou o canto de seu rosto, arranhando vagamente sua orelha.

Todos pararam vagamente depois do primeiro ataque coordenado por Aquiles enquanto esperavam mais ordens. O necromante estava a sete metros na frente do draconato, que por sua vez, estavam a uns doze do arqueiro, curandeiros e de Voltten.

Mas a questão para o necromante era a localização de Aquiles. Ele passou tão rápido como um vulto e, até aquele momento, não havia entrado em sua linha de visão novamente. O necromante tentou virar-se vagamente – tomando todo cuidado para não expor as costas para os inimigos.

Após um certo instante de relaxamento, os espadachins voltaram a atacar, mas dessa vez, junto de Glans que, semelhante aos garrões de braço de lutadores de sumo, tomou posse dos dois braços que bloquearam o ataque dos cultistas anteriormente.

Glans fazia força para empurrá-los para longe, enquanto braços menores atrapalhavam os cultistas, mas a figura do elfo ruivo não se revelava.

A mente cínica do necromante acabou por sofrer de seu maior mal, o medo. Seus resquícios de humanidade ainda afloravam sua mente, principalmente vendo aquele que mais lhe representava ameaça naquele grupo.

Até mesmo o draconato gigantesco não parecia ameaça perante a mente guerreira e preparada do cavaleiro negro, que não só exalava confiança, como lógica e inteligência. Ele recuou dois passos para trás – fingindo a ação de medo com uma ação de confiança.

Ele focou seus ouvidos decrépitos para tentar ouvir passos em sua retaguarda, mas o som das espadas golpeando os braços de escudo e do draconato rangendo de leve cansaço, camuflavam qualquer som.

Aos poucos, ele tentava morder os lábios de nervosismo, mas sua mandíbula quebrada ainda presa ao corpo dificultava, isso apenas o prejudicou mais. A cada segundo, ele aranhava seus braços de medo com suas unhas afiadas, rasgando sua pele de nervosismo.

Em sua frente, era visível a chama de bola de fogo se iniciando do lado do arqueiro, se ele se pusesse de costas, automaticamente o mago lançaria a esfera e quase que certamente ele acertaria suas costas.

Porém, o anonimato de Aquiles só piorava seus nervos e seu psicológico precoce.

Apenas a música de seu instrumento lhe acalmava, o tom doce das teclas tocando em sintonia com o universo, declarando cada parte do espirito negro da Morte.

Tal música, tais sons, tal soar... tal soar foi quebrado, rasgado e destruído pelas espadas de Aquiles, que as arrancaram e a as destruía da forma mais violenta possível.

– Marfim, não é. – Aquiles afirmou enquanto o necromante se virava para o mesmo com extremo medo, receio e quase que completamente em choque. – Na próxima, peça para a Morte lhe dar um feito completamente de metal. – A ironia do cavaleiro fora o suficiente para o necromante recolher todas as mãos e braços.

A fúria era visível, suas íris começaram a piscar com energia negra. Em um emanar semelhante as explosões de Cérbero – porém, em tonalidades rosas e roxas – ele se aproximou de Aquiles.

O cavaleiro obviamente não ficou parado. Aquiles pegou impulso no próprio altar do teclado destruído, tal como um ladino faria – e talvez aquilo daria um pouco de orgulho para Varis – ele saltou em êxtase, ficando quase um metro acima do necromante.

No exato segundo que Aquiles ficou em cima do inimigo, a esfera de fogo foi arremessada por Voltten que envolveu o necromante em chamas.

Porém, na aterrisagem, Aquiles foi recepcionado com um soco direto do tamanho de seu tronco. A porrada se dividiu pelo corpo inteiro e o mesmo destruiu quase que um lado inteiro em bancos de igreja na queda.

– Aquiles! – Glans, Voltten e Briseis gritaram preocupados com o cavaleiro.

– Relaxem, eu tô bem. – O cavaleiro falou ofegante, anulando mentalmente o que conseguia das dores. – O cara da foice foi pior. – Ironizou se sentando vagamente.

– Curandeiros! – Voltten gritou, se recompondo enquanto olhava para os cultistas de máscara assustada.

– Sim! – Os dois se direcionaram para o cavaleiro caído.

– Atacar algo de suma importância para o inimigo para desestabilizá-lo... – O arqueiro disse vagamente enquanto preparava outra flecha. – Seu capitão usa de muita baixaria.

– Do que custa lutarmos de igual para igual sendo que está mais que claro que devemos matá-lo a qualquer custo. – Voltten tomou fôlego rapidamente, ajeitando a postura e se pondo a conjurar novamente o feitiço. – Só não fale disso com o Edward e tudo estará bem.

– De acordo...

Por Tisso | 03/12/20 às 16:51 | Ação, Aventura, Fantasia, Sobrenatural, Magia, Mitologia